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Fotografar com Intenção: Dicas, Pensamentos e Processos

Elliott Erwitt – O Humor e a Ironia na Fotografia de Rua

Foto: © Elliott Erwitt / Magnum Photos

Há fotografias que nos impressionam pela beleza, outras pela força do momento e outras ainda pela capacidade que têm de nos fazer pensar. No trabalho de Elliott Erwitt encontramos muitas vezes uma reacção diferente: sorrimos.

Não necessariamente porque estamos perante uma situação extraordinária ou porque exista alguma coisa deliberadamente engraçada naquilo que estamos a ver. Muitas das suas fotografias mostram situações perfeitamente banais. Uma pessoa que passa na rua, um cão, um casal, uma sombra, um cartaz ou simplesmente duas pessoas que, por uma coincidência de tempo e espaço, acabam por estabelecer uma relação dentro do enquadramento.

É precisamente aí que começa o interesse pela fotografia de Erwitt. Ele tinha uma capacidade extraordinária para reparar nessas pequenas coincidências e perceber que, durante um instante, uma situação comum podia transformar-se em alguma coisa mais. Uma fotografia que inicialmente parece apenas curiosa pode revelar, quando olhamos com mais atenção, uma relação entre os elementos que não tínhamos percebido à primeira vista.

Foi esta forma de olhar que me fez voltar a pensar em Elliott Erwitt depois de assistir ao vídeo que serve de ponto de partida para este artigo. Mais do que voltar a contar a sua biografia ou apresentar uma selecção das suas fotografias mais conhecidas, interessa-me perceber como funcionava esse olhar e o que podemos retirar dele para a nossa própria fotografia de rua.

Antes de falar de Elliott Erwitt, vale a pena ver este vídeo

Foi este vídeo que esteve na origem desta reflexão sobre Elliott Erwitt e sobre a forma como utilizava o humor e a ironia na sua fotografia.

Gosto particularmente deste tipo de conteúdos porque uma entrevista, uma conversa ou uma análise do trabalho de um fotógrafo pode fazer-nos regressar às fotografias com uma perspectiva diferente. Depois de ouvirmos falar sobre aquilo que está por trás de determinadas imagens, começamos a reparar em coisas que anteriormente nos tinham passado despercebidas.

É isso que proponho fazer aqui. Não olhar para Erwitt apenas como o fotógrafo conhecido pelas fotografias de cães ou pelas situações engraçadas, mas tentar perceber o que existe por trás dessas imagens e como a observação, o enquadramento e o momento se conjugam para que uma situação banal se transforme numa fotografia.

Se tiveres algum interesse particular por fotografia de rua, vale a pena ver o vídeo antes de continuar o artigo. Muitas das ideias que desenvolvo a seguir tornam-se mais claras quando começamos por observar directamente o trabalho de Erwitt.

Para continuar a descobrir o trabalho de ELLIOTT ERWITT

Este artigo é apenas uma porta de entrada na obra de um dos grandes nomes da fotografia do século XX. A Magnum Photos, agência da qual Elliott Erwitt fez parte, reúne uma selecção significativa do seu trabalho e permite conhecer melhor a diversidade do seu olhar.
Foto: © Elliott Erwitt / Magnum Photos

Um fotógrafo muito para além do humor

Elliott Erwitt nasceu em Paris, em 1928, numa família de origem russa. Passou parte da infância em Itália e, em 1939, emigrou com a família para os Estados Unidos. Foi durante a adolescência, em Hollywood, que começou a aproximar-se da fotografia, trabalhando numa câmara escura comercial e estudando fotografia e cinema.

Depois de passar por Nova Iorque e de viajar pela Europa, começou a desenvolver a sua carreira profissional. Em 1953 entrou para a Magnum Photos, onde permaneceria ligado durante grande parte da sua vida profissional.

Ao longo de mais de sete décadas, Erwitt fotografou alguns dos acontecimentos e personagens mais importantes do século XX. Trabalhou para publicações como LIFE, Look, Collier’s e Holiday, fotografou políticos, actores, artistas e pessoas anónimas, e acompanhou acontecimentos históricos de enorme importância.

Fotografou Marilyn Monroe, Che Guevara, John F. Kennedy, Richard Nixon e Nikita Khrushchev, entre muitas outras figuras. Fotografou também guerras, manifestações, viagens e momentos familiares. Para além da fotografia, trabalhou no cinema e realizou vários documentários e filmes.

A sua carreira foi, portanto, muito mais abrangente do que aquilo que normalmente associamos às suas fotografias humorísticas.

Ainda assim, é precisamente nessas imagens aparentemente simples que encontramos uma das características mais particulares do seu trabalho. Erwitt tinha uma capacidade muito especial para encontrar situações inesperadas no quotidiano e transformá-las em imagens que podiam ser simultaneamente divertidas, elegantes e humanas.

O humor não está necessariamente na situação

Quando pensamos numa fotografia engraçada, podemos imaginar que o fotógrafo encontrou uma situação que já era divertida antes de levantar a câmara. No trabalho de Erwitt, muitas vezes não é isso que acontece.

A situação pode ser perfeitamente normal. Uma pessoa está a caminhar pela rua, um cão está parado, alguém está sentado num banco ou duas pessoas estão simplesmente a conversar. O que transforma aquele momento numa fotografia é a relação que se estabelece entre esses elementos.

Uma pessoa pode passar diante de um cartaz e criar uma coincidência visual. Um cão pode aparecer exactamente no espaço certo do enquadramento. Uma sombra pode criar uma forma que parece pertencer a outra pessoa. Uma criança pode repetir involuntariamente o gesto de um adulto.

Nada disso é particularmente extraordinário quando observado isoladamente. Mas a fotografia não mostra os elementos isoladamente. Coloca-os juntos.

E é precisamente essa relação que pode criar o humor.

É quase como um trocadilho visual. Não existe uma explicação escrita e não precisamos que o fotógrafo nos diga onde está a piada. Primeiro vemos a imagem e só depois percebemos que existe qualquer coisa de inesperado na relação entre aquilo que estamos a observar.

É uma das razões pelas quais muitas fotografias de Erwitt continuam a funcionar tão bem. O humor não depende necessariamente de uma referência cultural específica ou de uma situação que já conhecemos. Está na própria imagem e na nossa capacidade de reconhecer aquela coincidência.

Aprender a reparar no que está à nossa volta

Talvez uma das coisas mais importantes que podemos retirar do trabalho de Erwitt seja a importância da observação.

Na fotografia de rua é muito fácil sair para fotografar à procura de alguma coisa específica. Procuramos uma pessoa interessante, uma determinada luz, uma arquitectura particular ou uma situação que nos pareça suficientemente extraordinária para justificar uma fotografia.

O problema é que, quando estamos demasiado concentrados em encontrar uma determinada imagem, podemos deixar de reparar naquilo que está realmente a acontecer à nossa volta.

Erwitt parece ter desenvolvido uma enorme disponibilidade para observar sem saber exactamente o que iria encontrar. Uma rua banal podia ser suficiente. Um cenário que não parecia ter qualquer interesse especial podia transformar-se numa fotografia porque, naquele momento, os elementos certos acabaram por se encontrar.

Isto é particularmente interessante para quem começa a fotografar na rua. Muitas vezes pensamos que precisamos de procurar lugares especiais para fazer boas fotografias, quando talvez seja mais importante aprender a olhar para os lugares que já conhecemos.

A fotografia pode estar numa rua que atravessamos todos os dias. Podemos simplesmente nunca ter reparado nela.

Esperar pelo momento certo

Encontrar um cenário interessante é muitas vezes apenas o princípio.

Podemos encontrar uma parede, uma sombra, uma montra ou qualquer outro elemento que nos pareça visualmente interessante. Podemos fotografar imediatamente e continuar a andar. Mas também podemos permanecer naquele lugar e observar o que acontece.

Talvez alguém atravesse o enquadramento.

Talvez apareça um cão.

Talvez uma pessoa faça um determinado gesto.

Talvez duas pessoas se cruzem exactamente no momento certo.

É nesse sentido que a fotografia de rua exige alguma paciência. Não porque tenhamos de esperar horas por uma fotografia, mas porque muitas vezes o cenário está preparado e falta apenas aquilo que irá completar a imagem.

Erwitt tinha uma enorme capacidade para reconhecer esse momento.

O que torna uma fotografia interessante pode acontecer durante uma fracção de segundo. Um gesto termina, uma pessoa muda de posição ou um elemento sai do enquadramento e a relação desaparece.

É por isso que o chamado “timing” é tão importante na fotografia de rua. Não se trata apenas de reagir depressa. Trata-se de perceber quando os elementos que estamos a observar atingiram uma determinada relação e saber que aquele é o momento de fotografar.

O fundo pode ser tão importante como o assunto

Outra característica que vale a pena observar nas fotografias de Erwitt é a importância do enquadramento inteiro.

Quando encontramos uma pessoa que nos parece interessante, é natural concentrarmos a nossa atenção nela. Afinal, foi essa pessoa que despertou a nossa atenção e é provável que seja ela que queremos fotografar.

Mas aquilo que está à sua volta pode ser igualmente importante.

Um cartaz pode criar uma relação inesperada. Uma sombra pode acrescentar outra personagem à fotografia. Um reflexo pode alterar aquilo que pensamos estar a ver. Uma linha arquitectónica pode completar a composição. Outra pessoa pode entrar no enquadramento e mudar completamente o significado da imagem.

É por isso que algumas fotografias de Erwitt parecem tão simples e, ao mesmo tempo, tão bem resolvidas.

Não existe necessariamente um assunto espectacular. Existe uma relação precisa entre vários elementos.

Esta é uma boa razão para, quando fotografamos na rua, não nos limitarmos a olhar para aquilo que inicialmente nos chamou a atenção. Vale a pena observar também o que está atrás, ao lado e à frente desse elemento.

Por vezes, a fotografia que procuramos está precisamente aí.

Os cães de Elliott Erwitt

Os cães ocupam um lugar muito especial na obra de Elliott Erwitt e tornaram-se, de certa forma, personagens recorrentes da sua fotografia.

É fácil perceber porquê. Os cães permitem trabalhar com diferenças de escala, perspectiva e comportamento e, sobretudo, criam relações inesperadas com as pessoas.

Um cão pequeno junto às pernas de um adulto pode transformar completamente a leitura da imagem. Um animal que olha numa determinada direcção pode parecer estar a participar na situação. Um cão fotografado muito próximo pode dominar o enquadramento enquanto os seres humanos passam para segundo plano.

É interessante perceber que, nestas imagens, Erwitt não está simplesmente a fotografar cães.

Está a fotografar a relação entre os cães e as pessoas.

E é essa relação que muitas vezes cria o humor.

Existe também uma característica muito humana na forma como interpretamos estas imagens. Tendemos naturalmente a atribuir comportamentos e intenções aos animais. Quando um cão olha para alguém, imaginamos que está a observar. Quando está sentado de determinada maneira, parece estar a esperar. Quando ignora completamente uma pessoa, quase conseguimos imaginar aquilo que está a pensar.

A fotografia não nos diz nada disso, naturalmente. Somos nós que construímos essa interpretação.

E Erwitt sabia tirar partido dessa capacidade que temos de encontrar pequenas histórias nas situações mais simples.

Foto: © Elliott Erwitt / Magnum Photos

A ironia e a condição humana

O humor de Erwitt é interessante porque não depende apenas de situações engraçadas. Existe frequentemente uma ironia muito particular na forma como observa o comportamento humano.

Uma situação pode parecer perfeitamente normal e, ao mesmo tempo, revelar uma contradição.

Uma pessoa pode estar numa posição de grande importância e ser fotografada num momento absolutamente banal. Uma situação que parece solene pode conter um pequeno detalhe que a transforma. Uma cena aparentemente romântica pode ganhar outro significado quando reparamos no que está a acontecer à sua volta.

Esta capacidade de encontrar o lado absurdo da vida sem transformar necessariamente as pessoas em objectos de ridicularização é uma das características que tornam o trabalho de Erwitt tão particular.

Existe humor, mas existe também uma enorme dose de humanidade.

E talvez seja essa combinação que faz com que muitas das suas fotografias continuem a funcionar mesmo quando já conhecemos a imagem. O humor chama a nossa atenção, mas aquilo que encontramos depois é uma observação sobre as pessoas.

O humor sem transformar alguém no alvo

Quando começamos a fotografar na rua e descobrimos que determinadas situações podem resultar em imagens engraçadas, existe uma fronteira que vale a pena conhecer.

Uma coisa é encontrar humor numa situação. Outra é fotografar alguém apenas porque essa pessoa parece ridícula.

A diferença pode ser subtil, mas é importante.

No primeiro caso, o humor pode nascer da coincidência entre vários elementos. No segundo, a pessoa passa a ser simplesmente o alvo da fotografia.

O trabalho de Erwitt é interessante precisamente porque muitas das suas imagens conseguem provocar humor sem depender dessa exposição. O que nos faz sorrir está muitas vezes na composição, na relação entre pessoas e objectos, na perspectiva ou na coincidência do momento.

Esta questão é particularmente relevante actualmente, quando uma fotografia feita na rua pode ser publicada imediatamente e alcançar milhares de pessoas.

Antes de fotografarmos uma situação simplesmente porque nos parece engraçada, talvez valha a pena perceber de onde vem realmente o humor. É a situação que é curiosa? É a relação entre os elementos? É uma coincidência visual? Ou estamos simplesmente a achar graça a alguém?

Não existe uma resposta que funcione sempre, mas fazer esta distinção ajuda-nos a desenvolver um olhar mais consciente.

O preto e branco e a simplicidade

Grande parte das fotografias mais conhecidas de Elliott Erwitt foi realizada a preto e branco, embora a cor também tenha desempenhado um papel importante na sua obra.

O preto e branco funciona particularmente bem em muitas destas imagens porque reduz a quantidade de informação visual e permite concentrar a atenção nas formas, nos contrastes, nas sombras, nos gestos e nas relações entre os elementos.

Quando uma fotografia depende de uma coincidência visual, essa simplicidade pode ser importante.

Uma pessoa, um cão, uma sombra e uma linha arquitectónica podem ser suficientes para construir uma imagem. Retirando a informação da cor, algumas dessas relações tornam-se ainda mais evidentes.

Mas não devemos transformar isto numa regra.

Erwitt também fotografou a cores e demonstrou que a escolha da linguagem depende daquilo que queremos mostrar. O importante não é fotografar a preto e branco porque Elliott Erwitt fotografava a preto e branco. É perceber porque é que determinada escolha funciona numa determinada fotografia.

A técnica e o equipamento devem servir a fotografia e não o contrário.

Foto: © Elliott Erwitt / Magnum Photos

Quando a fotografia nos faz olhar uma segunda vez

Talvez seja esta uma das características que mais aprecio nas fotografias de Erwitt.

Muitas delas funcionam em dois momentos.

Primeiro vemos a situação de forma relativamente normal. Depois percebemos qualquer coisa que estava escondida à primeira vista.

É esse segundo olhar que torna a fotografia interessante.

Uma boa fotografia de rua não precisa de explicar tudo imediatamente. Pode deixar espaço para que o espectador descubra a imagem.

Quando isso acontece, a fotografia ganha uma espécie de pequena narrativa. Existe aquilo que vemos inicialmente e existe aquilo que percebemos depois.

O humor pode estar precisamente nessa descoberta.

E é também por isso que as fotografias de Erwitt não dependem necessariamente de legendas longas. Muitas vezes, quanto menos informação nos for dada, mais atentos ficamos àquilo que está dentro do enquadramento.

O que podemos retirar do olhar de Erwitt

Estudar Elliott Erwitt não significa tentar reproduzir as suas fotografias. Seria muito fácil cair numa espécie de imitação superficial: procurar cães, procurar situações caricatas ou tentar encontrar exactamente o mesmo tipo de humor.

Isso não nos levaria muito longe.

O mais interessante é perceber aquilo que está por trás das imagens.

A atenção ao que acontece à volta, a capacidade de esperar quando um cenário parece promissor, a preocupação com o enquadramento e a sensibilidade para reconhecer relações inesperadas são aspectos que podemos transportar para a nossa própria fotografia.

Uma das melhores formas de perceber isto é experimentar.

Na próxima vez que fores fotografar na rua, escolhe um local e permanece nele durante algum tempo. Em vez de percorreres rapidamente várias ruas à procura de alguma coisa interessante, observa o que acontece naquele espaço.

Repara nas pessoas, mas também nos fundos, nas sombras, nos reflexos e na forma como os diferentes elementos se relacionam. Talvez inicialmente não aconteça nada. Isso faz parte do exercício.

Depois, quando alguma coisa começar a acontecer, tenta perceber se existe uma relação entre os elementos que possa transformar aquela situação numa fotografia.

Não é necessário procurar uma fotografia engraçada. O objectivo é simplesmente aprender a reparar.

Com o tempo, esta forma de observar começa a tornar-se mais natural.

O humor é apenas uma das portas de entrada

Seria injusto reduzir Elliott Erwitt ao fotógrafo dos cães e das situações engraçadas.

A sua obra é muito mais vasta e inclui algumas das imagens mais importantes da fotografia documental e editorial do século XX. Fotografou acontecimentos políticos, conflitos, personalidades e momentos históricos, mas também desenvolveu um trabalho profundamente ligado à vida quotidiana.

Essa diversidade é importante porque nos mostra que o humor não era simplesmente um género dentro da sua fotografia.

Era uma das formas através das quais Erwitt olhava para o mundo.

Mesmo quando o assunto era sério, existia uma atenção particular aos pequenos acontecimentos e às contradições que surgiam dentro da realidade.

Talvez seja por isso que o seu trabalho continua a parecer tão humano.

Não encontramos apenas acontecimentos importantes. Encontramos pessoas.

E, com elas, encontramos também aquilo que existe de absurdo, inesperado e divertido na vida.

Elliott Erwitt e a arte de observar

Quando estudamos as fotografias de Erwitt, é natural que nos concentremos primeiro nas imagens mais famosas. São aquelas que vemos repetidamente e que acabamos por associar imediatamente ao seu nome.

Mas vale a pena ir um pouco mais longe e tentar perceber aquilo que existe em comum entre muitas dessas fotografias.

Há uma enorme atenção ao que acontece à sua volta, uma capacidade de esperar pelo momento certo e uma compreensão muito precisa do enquadramento. Erwitt parecia estar permanentemente disponível para reconhecer uma situação quando ela surgia, mesmo quando, à partida, não havia nada de particularmente extraordinário naquele lugar.

É uma forma de fotografar que exige menos procura e mais disponibilidade.

Não significa andar pela rua sem saber o que fazer. Significa estar suficientemente atento para perceber quando alguma coisa acontece.

E isso talvez seja uma das maiores dificuldades da fotografia de rua.

Não é difícil encontrar coisas para fotografar.

O difícil é perceber quais delas merecem realmente ser fotografadas.

Conclusão: aprender a ver o quotidiano

Elliott Erwitt morreu em 2023, aos 95 anos, depois de uma carreira que atravessou mais de sete décadas. Deixou uma obra extraordinariamente diversificada, que inclui fotografia documental, fotojornalismo, retrato, publicidade, cinema e inúmeras imagens encontradas no quotidiano.

Quando pensamos no seu trabalho, lembramo-nos muitas vezes do humor, dos cães, das coincidências e das situações absurdas. Mas talvez o mais importante esteja para além disso.

Erwitt mostrou-nos que não precisamos de acontecimentos extraordinários para encontrar fotografias extraordinárias. Uma rua comum pode ser suficiente. Uma pessoa desconhecida pode ser suficiente. Um cão, uma sombra, um reflexo ou uma coincidência podem ser suficientes.

O que faz a diferença é a capacidade de reparar.

A fotografia de rua depende naturalmente de técnica, de conhecimento do equipamento e de capacidade para reagir rapidamente, mas nenhuma dessas coisas substitui aquilo que acontece antes de carregarmos no botão.

É preciso olhar.

É preciso perceber o enquadramento.

É preciso reconhecer as relações entre os elementos.

E, muitas vezes, é preciso esperar.

Talvez seja essa a razão pela qual continuo a achar tão interessante o trabalho de Elliott Erwitt. Não porque nos ensine uma fórmula para fazer fotografias engraçadas, mas porque nos mostra como o quotidiano pode tornar-se extraordinário quando alguém está verdadeiramente atento.

No fundo, talvez a fotografia de rua seja também isto: aprender a ver aquilo que sempre esteve diante de nós, mas que normalmente não paramos para reparar.

Para continuar a pensar fotografia

Estudar fotógrafos como Elliott Erwitt não serve apenas para conhecer a História da Fotografia. Serve também para perceber como podemos desenvolver a nossa própria forma de olhar.

Cada fotógrafo pode mostrar-nos uma coisa diferente. Raghu Rai pode levar-nos a pensar sobre a relação humana, Garry Winogrand sobre o caos e a energia da rua, e Erwitt sobre a ironia, a coincidência e o absurdo escondido no quotidiano.

No fim, talvez todos eles nos conduzam à mesma questão, embora por caminhos diferentes:

quando levantamos a câmara, estamos realmente a ver?

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Paulo Teixeira

Este blog nasceu da vontade de partilhar conhecimento de forma genuína e acessível. Acredito profundamente que a troca de ideias e experiências é uma das formas mais ricas de crescer — não só enquanto fotógrafo, mas também enquanto pessoa. Aqui, não vais encontrar fórmulas mágicas nem atalhos vazios, mas sim reflexões, dicas práticas e conteúdos com propósito, criados para inspirar e ajudar quem está neste caminho da fotografia.

Para mim, aprender fotografia é sobretudo aprender a ver o mundo com outros olhos. Por isso, privilegio o contacto directo, as sessões práticas, as conversas informais e as perguntas simples (mas importantes). A experiência no terreno, os erros que cometi e os métodos que resultaram são o que partilho aqui, sempre com o intuito de tornar o processo de aprendizagem mais claro e gratificante.

Acredito numa aprendizagem contínua e mútua. Este blog não é apenas um espaço para ensinar, mas também para aprender contigo — com as tuas dúvidas, experiências e visões. Se este espaço te fizer pensar, experimentar ou ver de forma diferente, então já está a cumprir o seu propósito.

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