Há fotógrafos que parecem procurar a imagem perfeita. Garry Winogrand parecia procurar outra coisa: perceber o que acontecia ao mundo quando era transformado em fotografia.
É por isso que continua a ser uma figura tão importante na história da fotografia. Normalmente é apresentado como um dos grandes nomes da fotografia de rua, mas ele próprio não gostava muito dessa classificação. Para Winogrand, rótulos como “fotógrafo de rua” diziam pouco sobre o trabalho de um fotógrafo. Preferia pensar-se simplesmente como fotógrafo, alguém interessado em descobrir o que uma coisa podia parecer quando era fotografada.
Esta ideia é essencial para perceber o seu trabalho. Winogrand não fotografava para confirmar uma ideia que já tinha na cabeça. Fotografava para ver o que a fotografia podia revelar. O mundo era caótico, rápido, cheio de encontros estranhos, gestos interrompidos, expressões ambíguas e situações aparentemente banais. A câmara permitia-lhe entrar nesse movimento e transformar instantes confusos em imagens abertas, instáveis e cheias de possibilidades.
Antes de avançarmos, vale a pena ver o vídeo que serviu de inspiração para este artigo. Nele, conseguimos ouvir o próprio Winogrand a falar sobre a sua forma de ver e fotografar:
Neste artigo, parto de algumas ideias associadas ao seu método de trabalho para pensar não apenas em Garry Winogrand, mas também na forma como fotografamos, escolhemos, editamos e julgamos as nossas próprias imagens.
O fotógrafo que não queria ser apenas “fotógrafo de rua”
Garry Winogrand ficou para sempre associado à fotografia de rua, sobretudo pela forma como fotografou a vida americana nas décadas de 1950, 60 e 70. As suas imagens mostram ruas, multidões, animais, aeroportos, eventos públicos, mulheres, carros, gestos e pequenos choques visuais do quotidiano. No entanto, ele resistia à ideia de ser reduzido a uma categoria.
Essa recusa é importante. Para Winogrand, dizer que alguém era “fotógrafo de rua” podia ser tão limitado como chamar-lhe “fotógrafo de zoo” apenas porque tinha feito um livro chamado The Animals. O problema não era fotografar na rua. O problema era imaginar que o lugar onde a fotografia acontecia explicava o que a fotografia era.
Isto é uma lição importante para qualquer fotógrafo. Às vezes preocupamo-nos demasiado com etiquetas: fotografia de rua, fotografia documental, retrato, viagem, reportagem, autoral. As categorias podem ajudar a organizar ideias, mas também podem fechar o olhar. Winogrand parecia interessado em algo mais simples e mais difícil: olhar para o mundo e descobrir o que a fotografia podia fazer com ele.
Talvez seja por isso que as suas imagens continuam tão vivas. Elas não parecem ilustrações de uma teoria. Parecem encontros com o acaso. Há nelas uma energia estranha, muitas vezes imperfeita, onde a composição parece quase escapar, mas não escapa. Tudo parece à beira do desequilíbrio, e é precisamente aí que a fotografia ganha força.
A distância emocional na escolha das fotografias
Uma das ideias mais conhecidas sobre Garry Winogrand é a sua relação com o tempo entre fotografar e ver o resultado. É frequentemente referido que ele deixava passar muito tempo antes de revelar ou analisar os seus rolos, precisamente para criar distância emocional em relação ao momento fotografado.
Esta ideia faz muito sentido. Quando acabamos de fotografar, ainda estamos presos ao que sentimos no momento. Lembramo-nos do esforço, da luz, da pessoa, da situação, da dificuldade ou da excitação de ter conseguido carregar no disparador no instante certo. Mas essa memória pode enganar-nos. Podemos achar que uma fotografia é boa porque nos lembramos do que sentimos quando a fizemos, e não porque a imagem funciona realmente.
Winogrand percebia bem esta armadilha. Para ele, a fotografia tinha de ser julgada como fotografia. O que interessa é o que está dentro do enquadramento, não aquilo que o fotógrafo sentiu no momento. Quem vê a imagem não esteve lá. Não conhece a história, não sabe o que aconteceu antes ou depois e não sente a mesma coisa que o fotógrafo sentiu.
Esta talvez seja uma das maiores lições que podemos retirar do seu método. Editar fotografias exige frieza. Não no sentido de ausência de emoção, mas no sentido de conseguir olhar para a imagem como objeto autónomo. A pergunta não deve ser apenas “eu gostei de fazer esta fotografia?”, mas sim “esta fotografia continua a funcionar quando já não estou preso ao momento em que a fiz?”.
Para quem fotografa hoje, especialmente em digital, esta lição é ainda mais importante. Vemos imediatamente a imagem no ecrã, escolhemos depressa, publicamos depressa e esquecemos depressa. Talvez valha a pena recuperar alguma dessa distância. Deixar as fotografias repousar. Voltar a elas dias ou semanas depois. Perceber quais continuam a ter força quando a memória do momento já perdeu intensidade.
Não fotografar pela anca
Outra ideia muito associada a Winogrand é a recusa de fotografar sem olhar pelo visor. Em entrevistas, ele afirmou que praticamente nunca fotografava sem usar o visor, admitindo apenas algumas exceções físicas, como situações em que precisava de levantar a câmara acima da cabeça.
Isto é curioso porque muitas pessoas associam a fotografia de rua à rapidez, ao improviso e até ao disparo “pela anca”, como se fotografar sem olhar fosse uma forma de ser mais discreto ou mais espontâneo. Winogrand pensava de forma diferente. Para ele, se não olhamos pelo visor, perdemos controlo sobre o enquadramento.
Esta posição não significa que a fotografia tenha de ser rígida, lenta ou excessivamente calculada. Winogrand fotografava rápido, aproximava-se muito das pessoas e trabalhava em situações de grande movimento. Mas essa rapidez não era sinónimo de descontrolo. Mesmo que fosse apenas por uma fração de segundo, havia uma decisão visual. Havia uma relação com o enquadramento.
Esta é uma lição prática muito útil. Fotografar depressa não significa fotografar às cegas. A espontaneidade não dispensa intenção. Podemos trabalhar com acaso, movimento e imprevisibilidade, mas continuamos responsáveis pelo que colocamos dentro dos quatro limites da imagem.
Na fotografia de rua, isto é especialmente importante. O mundo já é caótico por si só. Se o fotógrafo abdica completamente do enquadramento, a imagem pode tornar-se apenas acidente. Winogrand aceitava o acidente, mas não parecia abdicar do controlo. Talvez a força das suas fotografias venha precisamente dessa tensão: o mundo parece desordenado, mas a fotografia encontra uma forma de o conter.
Duas câmaras, duas formas de ver
Garry Winogrand também é conhecido por ter trabalhado muitas vezes com duas câmaras, uma carregada com filme a preto e branco e outra com filme a cores. Isto não deve ser entendido como uma regra permanente ou uma fórmula mágica, mas como uma forma interessante de pensar a fotografia.
O preto e branco e a cor não são apenas escolhas estéticas. São formas diferentes de organizar o mundo. O preto e branco pode destacar estrutura, gesto, contraste, forma e tensão. A cor pode introduzir outra camada de informação: atmosfera, época, temperatura, sinais visuais, objetos e relações cromáticas que mudam completamente a leitura da imagem.
Durante muito tempo, Winogrand foi sobretudo reconhecido pelo seu trabalho a preto e branco, mas a sua fotografia a cores tem vindo a ser revisitada e valorizada. Isso mostra como um fotógrafo pode ser mais complexo do que a imagem pública que fica dele. Às vezes, a história simplifica os autores. Reduz uma obra a um estilo, uma fase ou uma técnica dominante.
A ideia das duas câmaras também nos pode ensinar algo hoje, mesmo que trabalhemos em digital. Não precisamos necessariamente de levar duas máquinas. Mas podemos sair para fotografar com duas intenções visuais diferentes. Podemos procurar imagens a pensar em preto e branco e, ao mesmo tempo, estar atentos à cor. Podemos fotografar a mesma realidade com duas perguntas diferentes.
No fundo, trata-se de perceber que a forma como escolhemos ver altera profundamente o que encontramos. A câmara não é apenas um dispositivo técnico. É uma forma de atenção.
O arquivo invisível de Garry Winogrand
Um dos factos mais impressionantes sobre Garry Winogrand é o arquivo que deixou para trás. Quando morreu, em 1984, deixou milhares de rolos por revelar, contactos por editar e cerca de centenas de milhares de imagens que não chegou a selecionar. O MoMA refere 2.500 rolos de filme por revelar e cerca de 300.000 imagens não editadas.
Este número é fascinante, mas também desconfortável. Por um lado, mostra uma energia fotográfica quase obsessiva. Winogrand fotografava muito, continuamente, como se o mundo estivesse sempre a oferecer possibilidades visuais. Por outro lado, levanta uma pergunta difícil: o que é uma fotografia que o próprio fotógrafo nunca viu, nunca escolheu e nunca assumiu como obra?
Esta questão é muito importante. Fotografar não é apenas carregar no disparador. Também é escolher. É olhar para o contacto, fazer uma seleção, perceber o que fica e o que não fica. A edição faz parte da autoria. Quando um fotógrafo deixa um arquivo gigantesco por organizar, abre-se uma zona ambígua entre obra, material bruto e possibilidade.
No caso de Winogrand, esse arquivo tornou-se parte do seu mito. Ele fotografou tanto que uma parte significativa do seu trabalho continuou invisível depois da sua morte. Isso torna-o ainda mais fascinante, mas também nos obriga a pensar sobre excesso, seleção e responsabilidade.
Hoje, em digital, vivemos uma versão ampliada deste problema. Todos podemos produzir milhares de imagens com facilidade. Mas quantas dessas imagens são realmente vistas? Quantas são escolhidas? Quantas chegam a formar um corpo de trabalho? A facilidade de fotografar pode criar a ilusão de abundância, mas a fotografia só ganha forma quando há também edição, reflexão e escolha.
Fotografar para descobrir
Uma das frases mais conhecidas de Garry Winogrand é a ideia de que fotografava para descobrir como o mundo ficava quando era fotografado. Esta frase resume muito do seu pensamento. A fotografia não era, para ele, uma simples cópia da realidade. Era uma transformação.
Quando colocamos quatro limites à volta de um pedaço do mundo, esse pedaço muda. O gesto ganha outro peso. Uma expressão torna-se ambígua. Duas pessoas que talvez nada tenham a ver uma com a outra passam a relacionar-se dentro da imagem. Um fundo deixa de ser fundo. Um detalhe secundário pode tornar-se essencial.
É isso que torna a fotografia tão interessante. Ela não mostra apenas o mundo. Mostra o mundo transformado pela câmara, pelo enquadramento, pelo tempo e pela escolha do fotógrafo.
Winogrand parecia aceitar profundamente essa instabilidade. As suas imagens raramente explicam tudo. Muitas vezes deixam-nos numa posição de dúvida. O que está realmente a acontecer? Porque é que aquela imagem nos prende? O que é gesto, acaso, composição ou tensão social? Talvez essa abertura seja precisamente uma das razões pelas quais continuam a ser tão estudadas.
Para quem fotografa, esta é uma lição poderosa. Nem sempre precisamos de sair com uma ideia fechada. Às vezes, fotografar é uma forma de perguntar. É sair para ver o que acontece quando o mundo entra dentro de um enquadramento.
O que Garry Winogrand nos ensina hoje
A fotografia de Garry Winogrand pode parecer distante no tempo, mas muitas das suas lições continuam extremamente atuais. Ele trabalhou com filme, contacto, espera e rolos por revelar. Nós trabalhamos muitas vezes com cartões de memória, ecrãs, pré-visualizações imediatas e milhares de ficheiros digitais. Mas as questões principais continuam muito parecidas.
Como olhamos? Como escolhemos? Como sabemos se uma fotografia é realmente boa ou se estamos apenas ligados emocionalmente ao momento em que a fizemos? Como equilibramos rapidez e controlo? Como evitamos transformar quantidade em dispersão? Como damos forma a um arquivo?
Winogrand lembra-nos que fotografar muito pode ser importante, mas não chega. É preciso olhar. É preciso rever. É preciso aceitar que algumas imagens só se revelam com o tempo. Também nos lembra que a fotografia não depende apenas de grandes acontecimentos. A vida comum pode ser suficiente, desde que saibamos vê-la com intensidade.
Talvez seja esse o seu maior legado. Não uma fórmula para fazer fotografia de rua, mas uma forma inquieta de estar diante do mundo. Fotografar sem garantias. Fotografar sem saber exatamente o que a imagem vai dizer. Fotografar para descobrir.
Conclusão: entre o acaso e o controlo
Garry Winogrand mudou a fotografia não porque tenha deixado um conjunto simples de regras, mas porque mostrou que a fotografia podia viver num território instável entre o acaso e o controlo.
Ele recusava rótulos fáceis, desconfiava da emoção imediata, defendia o uso do visor, explorava diferentes formas de ver e deixou um arquivo tão vasto que ainda hoje nos obriga a pensar sobre o que significa fotografar demais.
No fundo, a sua obra lembra-nos que uma fotografia não é apenas aquilo que vimos no momento. É aquilo que a imagem se torna depois. Quando a emoção passa, quando o tempo avança, quando olhamos de novo e percebemos se aquela fotografia continua ou não a ter força.
Talvez seja essa a grande lição de Winogrand: fotografar é apenas o começo. O verdadeiro trabalho começa quando olhamos para aquilo que fotografámos e tentamos perceber se, dentro daquele fragmento de mundo, aconteceu realmente alguma coisa.





