Imagem: André Kertész, retrato de Bernard Gotfryd, 1982. Library of Congress, Bernard Gotfryd Photograph Collection.
André Kertész (1894-1985)
Este artigo não procura reproduzir a obra de André Kertész, mas reflectir sobre a forma como o seu olhar continua a influenciar a fotografia moderna: a atenção ao instante, a poesia do quotidiano e a capacidade de transformar o simples em imagem.
E se o momento decisivo tivesse começado antes de Cartier-Bresson?
Há fotógrafos que entram na história pela fama de uma frase. Outros entram de forma mais silenciosa, quase subterrânea, através da influência que deixam no olhar dos outros. André Kertész pertence a esse segundo grupo. Não porque tenha sido menor, mas precisamente porque a sua grandeza parece viver num lugar mais discreto: no gesto, na intuição, na delicadeza com que transformava o quotidiano em fotografia.
Henri Cartier-Bresson ficou mundialmente associado ao “momento decisivo”. A expressão tornou-se uma espécie de síntese da fotografia de rua, da composição no instante exacto, da capacidade de reconhecer quando forma, gesto e significado se alinham numa fracção de segundo. No entanto, antes de essa ideia se tornar famosa, André Kertész já trabalhava nesse território. Talvez de forma menos teórica, menos afirmativa, menos transformada em método. Ainda assim, profundamente viva.
Cartier-Bresson terá dito uma frase que resume bem essa herança: “Tudo o que fizemos, Kertész fez primeiro.” É uma afirmação forte, mas faz sentido. Não significa que Kertész tenha inventado sozinho tudo o que veio depois. Significa antes que muitos dos caminhos que a fotografia moderna viria a seguir já estavam presentes no seu trabalho: a rua como espaço de observação, a composição intuitiva, a atenção ao pequeno gesto, a poesia encontrada no comum e a liberdade de fotografar não apenas aquilo que se vê, mas aquilo que se sente.
O fotógrafo que chegou antes do rótulo
André Kertész nasceu em Budapeste, em 1894, e começou a fotografar ainda jovem. Antes de ser reconhecido como uma das figuras fundamentais da fotografia moderna, foi um autodidacta movido pela curiosidade. A sua relação com a fotografia nunca pareceu nascer de uma vontade de domínio técnico absoluto, mas de uma necessidade interior de observar.
Essa diferença é importante. Há fotógrafos que usam a técnica para controlar o mundo. Kertész parecia usá-la para se aproximar dele.
Em 1925 mudou-se para Paris, cidade que nesse período era um ponto de encontro entre artistas, escritores, pintores, fotógrafos e movimentos de vanguarda. Foi aí que o seu olhar encontrou um território fértil. Paris deu-lhe ruas, cafés, sombras, escadas, reflexos, corpos em movimento, figuras solitárias e pequenos episódios de vida que podiam passar despercebidos a quase toda a gente.
Kertész percebeu cedo que a fotografia não precisava de procurar sempre o acontecimento grandioso. Podia viver numa cadeira vazia, num garfo sobre uma mesa, numa sombra projectada, num homem a atravessar uma praça, numa figura inclinada contra uma parede. O mundo comum, quando olhado com atenção, deixava de ser comum.
Paris: quando a rua se transformou em poesia
A fase parisiense de Kertész é essencial para compreender a fotografia de rua moderna. O seu trabalho não era apenas documentação. Também não era apenas arte abstracta. Estava num espaço intermédio, difícil de prender a uma categoria fechada. Era diário visual, era composição, era encontro, era acaso e era intenção.
Em imagens como Satiric Dancer, de 1926, percebe-se essa capacidade rara de deixar a vida respirar dentro da composição. A fotografia parece espontânea, mas não é descuidada. Há gesto, há forma, há humor, há tensão visual. O corpo da bailarina responde ao espaço, aos objectos e à energia do momento. Tudo parece acontecer naturalmente, mas o olhar de Kertész organiza a cena sem a tornar rígida.
Essa é uma das grandes lições do seu trabalho: uma boa fotografia não precisa de parecer forçada para ser profundamente construída.
Muitas vezes, quando se fala de composição, corre-se o risco de a transformar numa lista de regras. Linhas, triângulos, diagonais, equilíbrio, molduras naturais, ponto de fuga. Tudo isso pode ser útil. No entanto, em Kertész, a composição parece nascer primeiro da sensibilidade. Ele não fotografa para demonstrar uma regra. Fotografa porque alguma coisa no mundo lhe pede atenção.
E talvez seja aí que está a diferença entre uma imagem tecnicamente correcta e uma imagem que permanece connosco.
Antes do momento decisivo, havia atenção
O “momento decisivo” tornou-se quase uma mitologia na fotografia. A ideia de que existe um instante exacto, e apenas um, em que a imagem atinge a sua forma plena. Cartier-Bresson levou essa ideia a um nível extraordinário, com uma precisão geométrica e uma inteligência visual que continuam a impressionar.
Mas Kertész ensina-nos algo ligeiramente diferente. Antes do momento decisivo, existe a atenção. Antes do clique, existe uma disponibilidade interior para reparar. Antes da composição, existe uma forma de estar no mundo.
Kertész não parecia perseguir o instante como quem caça uma presa. Parecia esperá-lo como quem escuta.
Essa diferença muda tudo. Na sua fotografia, o momento não é apenas uma solução visual. É uma espécie de encontro entre o fotógrafo e a vida. Pode ser uma pessoa a ler num parque, uma sombra que se desloca sobre uma parede, uma figura pequena perdida numa praça coberta de neve ou um objecto simples transformado em símbolo. O que interessa não é apenas o que acontece. É a forma como aquilo nos toca.
É por isso que a sua fotografia continua tão actual. Num tempo em que se fotografa demasiado depressa, Kertész lembra-nos que ver não chega. É preciso sentir.
Fotografar com o coração, não apenas com os olhos
Uma das frases mais associadas a André Kertész diz que ver não é suficiente; é preciso sentir aquilo que se fotografa. Mesmo que uma frase, isolada, nunca consiga explicar toda uma obra, esta aproxima-nos muito do centro da sua fotografia.
Kertész não procurava imagens espectaculares no sentido mais fácil da palavra. Procurava imagens verdadeiras para o seu próprio olhar. E a verdade, aqui, não significa uma reprodução neutra do mundo. Significa fidelidade à experiência interior do fotógrafo.
É importante perceber isto, sobretudo para quem está a aprender fotografia. Muitas vezes há uma preocupação enorme com equipamento, definições, nitidez, objectivas, sensores, perfis de cor e edição. Tudo isso tem o seu lugar. A técnica é necessária. Mas a técnica sozinha não cria uma visão.
Uma fotografia pode estar bem exposta, bem focada e bem composta, e ainda assim não dizer grande coisa. Também pode ser simples, silenciosa, quase mínima, e ficar dentro de nós durante anos.
Kertész trabalhava precisamente nesse lugar. O seu olhar não gritava. Não precisava de o fazer. Era uma fotografia de intensidade baixa, mas profunda. Uma fotografia que pedia tempo.
A liberdade de continuar amador
Há outra ideia muito bonita em Kertész: a defesa do espírito amador. Não no sentido de falta de conhecimento ou de falta de exigência. Pelo contrário. Amador, aqui, deve ser entendido como alguém que mantém uma relação de amor com aquilo que faz.
Kertész trabalhou profissionalmente, publicou em revistas, fez ensaios, colaborou com meios importantes e teve uma carreira longa. No entanto, nunca pareceu perder essa ligação íntima à fotografia como descoberta. O fotógrafo amador, neste sentido mais nobre, é aquele que ainda se deixa surpreender. Aquele que não fotografa apenas para cumprir uma encomenda, seguir uma tendência ou repetir uma fórmula.
Esta ideia é preciosa para qualquer pessoa que fotografa. Quando a fotografia se torna apenas produção, começamos a perder contacto com aquilo que nos levou a pegar numa câmara. Kertész recorda-nos que a curiosidade é uma ferramenta tão importante como a abertura, a velocidade ou o ISO.
Ser fotógrafo não é apenas saber operar uma câmara. É continuar disponível para olhar.
Nova Iorque: quando a distância entrou na imagem
Em 1936, André Kertész mudou-se para Nova Iorque. A mudança, que inicialmente poderia parecer uma oportunidade de crescimento profissional, tornou-se também uma espécie de exílio emocional. A América não o recebeu da mesma forma que Paris. O seu olhar lírico, discreto e poético nem sempre encaixava nas expectativas editoriais de uma cultura visual mais directa, comercial e afirmativa.
Essa deslocação marcou profundamente o seu trabalho. Em Paris, Kertész parecia circular dentro da cidade. Em Nova Iorque, muitas vezes, parece observá-la a partir de uma certa distância. Essa distância não é apenas física. É também emocional.
As fotografias feitas a partir de pontos elevados, especialmente sobre Washington Square, mostram figuras pequenas, quase frágeis, recortadas no espaço urbano. Pessoas atravessam a neve, caminham entre árvores, desaparecem na geometria da cidade. O fotógrafo observa de cima, como se estivesse presente e ausente ao mesmo tempo.
Esta fase é particularmente comovente porque mostra como uma mudança de lugar pode transformar a linguagem de um artista. Kertész não deixou de ser poético. Mas a sua poesia tornou-se mais solitária. Menos próxima da vitalidade das ruas de Paris e mais ligada à distância, à memória e à sensação de não pertença.
A janela como último território
Depois da morte da sua mulher, Elizabeth, em 1977, o trabalho de Kertész tornou-se ainda mais íntimo. A janela do apartamento, os objectos, os reflexos e pequenas figuras de vidro passaram a ocupar um lugar central. A fotografia deixou de ser apenas uma forma de observar o mundo exterior e tornou-se também uma forma de lidar com a perda.
Há algo profundamente humano nesta fase final. Kertész não tenta esconder a fragilidade. Pelo contrário, transforma-a em linguagem. A câmara passa a ser uma ponte entre presença e ausência, entre memória e solidão, entre aquilo que ficou e aquilo que já não pode voltar.
É uma lição difícil, mas importante. A fotografia não serve apenas para mostrar o mundo. Também pode servir para nos ajudar a suportá-lo.
O que André Kertész ainda nos ensina hoje
Olhar para André Kertész hoje é mais do que estudar um nome importante da história da fotografia. É reaprender uma atitude.
Ele ensina-nos a procurar menos o espectáculo e mais a presença. A confiar no quotidiano. A perceber que uma imagem não precisa de ser complicada para ser profunda. A aceitar que a fotografia nasce muitas vezes de uma mistura delicada entre composição, acaso, silêncio e emoção.
Também nos ensina que a fotografia de rua não é apenas apontar a câmara para desconhecidos. É construir uma relação com o espaço. É perceber luz, gesto, ritmo, fundo, distância e tempo. É saber esperar sem endurecer o olhar. É estar atento sem se tornar invasivo.
Para quem fotografa retrato, paisagem, rua, casamento ou qualquer outro género, Kertész continua a ser uma referência essencial porque a sua obra fala de algo anterior ao tema: fala da forma como olhamos.
Um vídeo que vale a pena ver
Para complementar este artigo, recomendo que vejas o vídeo Why Every Photographer Needs André Kertész. É uma boa porta de entrada para a obra dele e ajuda a perceber porque motivo Kertész continua a ser tão importante para fotógrafos de diferentes áreas.
Mais do que uma biografia rápida, o vídeo funciona como um convite para regressar às imagens. E isso é essencial. Nenhum texto substitui a experiência de olhar demoradamente para as fotografias de um autor. A melhor forma de compreender Kertész é passar tempo com as suas imagens, reparar nos detalhes, sentir o ritmo, observar a simplicidade e perceber como tanta coisa acontece dentro de fotografias aparentemente discretas.
Conclusão: a fotografia moderna também nasceu em silêncio
André Kertész talvez não seja tão citado pelo grande público como Henri Cartier-Bresson. Talvez o seu nome não apareça tantas vezes nas conversas rápidas sobre fotografia de rua. No entanto, a sua presença está em muitos dos caminhos que a fotografia moderna percorreu.
Antes do “momento decisivo” se tornar uma expressão célebre, Kertész já nos mostrava que a fotografia vive da atenção ao instante. Antes de a rua ser transformada em palco da modernidade, ele já encontrava nela poesia, humor, solidão e forma. Antes de muitos fotógrafos procurarem uma linguagem pessoal, ele já demonstrava que a técnica só ganha profundidade quando é atravessada por sentimento.
Talvez seja essa a sua maior lição: fotografar não é apenas ver melhor. É sentir com mais atenção.
E, quando isso acontece, até o mais simples dos gestos pode tornar-se fotografia.
Para quem quiser aprofundar a obra de André Kertész, recomendo uma visita à colecção online do Museum of Modern Art, em Nova Iorque, onde é possível ver várias fotografias do autor e perceber melhor a diversidade do seu olhar.
Mais do que procurar apenas as imagens mais conhecidas, vale a pena observar a forma como Kertész organiza o quotidiano: a relação entre sombra e luz, a presença discreta das figuras humanas, a atenção aos objectos simples e a capacidade de transformar pequenos gestos em poesia visual.
Ver estas fotografias em conjunto ajuda a compreender porque motivo a sua influência foi tão profunda na fotografia moderna e porque tantos fotógrafos, incluindo Henri Cartier-Bresson, reconheceram nele uma referência essencial.
Uma selecção institucional de obras de André Kertész para complementar a leitura deste artigo.


