Na fotografia de rua, cada lente é um convite a olhar o mundo de forma diferente.
Há uns meses caminhei pelas ruas de Évora com uma 35mm fixa. Mais recentemente, aventurei-me por Ayamonte, em Espanha, apenas com uma 85mm. Duas cidades, duas distâncias focais, dois resultados que parecem quase opostos.
A escolha da lente não é apenas uma decisão técnica — é uma forma de definir como nos aproximamos das pessoas, da arquitetura, da luz e da narrativa que queremos construir.
O olhar da 35mm em Évora
Com uma 35mm, senti-me dentro da cidade. Esta lente obriga-nos a estar próximos, a mergulhar no espaço, a sentir o ritmo das ruas.
Em Évora, fotografei não só monumentos mas também detalhes, sombras, sobreposições de planos, procurando sempre ir além do postal turístico.
A 35mm favorece:
- Contextualizar pessoas e arquitetura na mesma fotografia.
- Trabalhar camadas de planos, da rua ao fundo da cidade.
- Criar narrativas rápidas, próximas e imersivas.
É a lente da proximidade e da espontaneidade — onde cada passo que damos muda radicalmente a composição.
Fotografias realizadas com uma lente fixa 35mm:
O olhar da 85mm em Ayamonte
A experiência em Ayamonte foi radicalmente diferente. A 85mm dá-nos distância, mas também compressão e intensidade.
Fotografei silhuetas, contrastes de luz artificial com luz natural, expressões que, com outra lente, poderiam passar despercebidas.
A 85mm favorece:
- Destacar sujeitos isolados em meio ao caos urbano.
- Trabalhar fundos desfocados e mais limpos.
- Criar imagens quase teatrais, onde a rua se transforma em palco.
Aqui, a fotografia torna-se mais seletiva, mais contemplativa. Deixamos de ser parte da multidão para sermos observadores atentos.
Fotografias realizadas com uma lente fixa 35mm:
Dois olhares, a mesma cidade (interior e exterior)
O que senti nestas experiências é que a lente condiciona o meu corpo e a minha forma de estar na rua:
- Com a 35mm, caminho dentro da cena. Aproximo-me. Ouço, sinto, interajo.
- Com a 85mm, recuo. Espero. Observo. A ação vem até mim.
Ambas são fotografia de rua, mas o resultado final são universos diferentes.
A Voz do Fotógrafo
Se tivesse de resumir:
- A 35mm é o olhar do participante.
- A 85mm é o olhar do espectador.
E é nesse jogo que a fotografia de rua se torna tão fascinante: não há certo nem errado, apenas diferentes formas de contar o mesmo espaço, a mesma vida.
Porque escolhi lentes fixas e não zoom
Uma questão que me perguntam muitas vezes é: porquê usar lentes fixas em vez de uma zoom?
No caso destas experiências em Évora (35mm) e Ayamonte (85mm), a resposta é simples: a abertura máxima.
Ambas as lentes que utilizei permitem abrir até f/1.4, algo muito útil quando fotografo em sombras densas, interiores pouco iluminados ou mesmo à noite.
Essa abertura não só garante velocidades de obturação mais rápidas, como também me dá a possibilidade de criar fundos desfocados e destacar melhor o motivo principal.
Além disso, usar uma lente fixa obriga-me a mover o corpo, procurar ângulos e composições, tornando a experiência de fotografar na rua ainda mais física e criativa.
E se só tiveres a lente de kit?
Talvez estejas a pensar: “Mas eu só tenho a 18-55mm ou até uma 18-200mm…”
Deixa-me dizer-te: isso não é desculpa para não fazer fotografia de rua.
Essas lentes são versáteis e permitem-te experimentar tanto a proximidade de uma grande angular como a compressão de uma tele curta.
Mais importante do que a lente é a tua disponibilidade para observar, esperar, interagir e criar.
Sugestão prática:
- Escolhe uma distância focal da tua lente (por exemplo, 35mm ou 50mm) e fotografa o dia todo só com ela. Vais sentir na pele o mesmo exercício de disciplina que fiz com as lentes fixas.
A fotografia de rua vive do olhar e da intenção, não do equipamento.
Conclusão
Fotografar na rua é, acima de tudo, um exercício de liberdade.
Não importa se tens uma lente de 35mm, uma 85mm ou apenas a lente de kit — o que realmente conta é o olhar que levas contigo.
Sai de casa, caminha devagar, observa as sombras, os reflexos, os gestos das pessoas. A rua é imprevisível, mas é também um palco onde a beleza se revela nos detalhes mais simples.
Não te limites pelo equipamento ou pela ideia de “não estar preparado”. A prática constante, a curiosidade e a vontade de experimentar são as verdadeiras ferramentas para evoluir.
A beleza está à tua volta. Cabe-te a ti escolher vê-la — e fotografá-la.
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