No dia 30 de Novembro voltei à ARCM, em Faro, para fotografar mais um concerto organizado pela A3 — Associação Algarve Alternativo. Quem conhece aquele espaço sabe que há ali uma energia muito própria: o palco perto do público, a luz difícil, o fumo a atravessar os projectores, os músicos quase à nossa frente e aquela sensação crua de sala pequena onde tudo acontece com intensidade.
É precisamente esse tipo de ambiente que me atrai na fotografia de concerto. Não é uma fotografia limpa, previsível ou confortável. É uma fotografia feita de reacção, de instinto, de adaptação e de presença. Há momentos em que tens luz. Há momentos em que quase não tens nada. Há instantes em que uma expressão aparece durante uma fracção de segundo e desaparece logo a seguir. E é nesse intervalo mínimo que a fotografia tem de acontecer.
Desta vez decidi impor uma limitação a mim próprio: fotografei todo o concerto apenas com uma lente.
Nada de zooms.
Nada de trocar de objectiva.
Nada de planos de segurança.
Apenas a Viltrox 85mm f/1.4 PRO montada na Sony A7 III.
À partida, pode parecer uma escolha arriscada para fotografia de concerto. Uma 85mm é uma lente relativamente fechada, exige distância, reduz o campo de visão e obriga a pensar muito antes de fotografar. Mas foi precisamente isso que me interessou. Queria sair da lógica mais confortável de cobrir tudo e concentrar-me numa visão mais específica: retratos de palco, expressões, camadas de luz, fumo, movimento e intensidade.
A fotografia, muitas vezes, cresce quando deixamos de tentar fazer tudo.
Porquê fotografar um concerto só com uma 85mm?
Porque uma lente fixa obriga-te a decidir melhor.
Quando tens várias distâncias focais disponíveis, é fácil passares parte do concerto a pensar no equipamento: se devias usar uma grande angular, se devias aproximar com uma teleobjectiva, se devias trocar de lente, se devias levar outro corpo. Tudo isso pode ser útil, claro. Mas também ocupa espaço mental.
Ao escolher apenas uma 85mm, eliminei essas alternativas. A lente estava escolhida. A distância focal estava escolhida. O tipo de linguagem visual também.
A partir daí, a pergunta deixou de ser: “Que lente devo usar?”
E passou a ser: “O que consigo fazer com esta visão?”
Essa mudança parece simples, mas altera completamente a forma como fotografo. Obriga-me a procurar melhor os lugares, a antecipar movimentos, a esperar pela luz certa e a aceitar que nem todas as fotografias são possíveis. Em vez de tentar cobrir o concerto inteiro, concentro-me naquilo que a lente me permite fazer melhor.
E uma 85mm permite fazer algo muito poderoso em palco: isolar.
- Isolar expressões.
- Isolar gestos.
- Isolar músicos no meio do caos.
- Isolar luz e fumo como se fossem parte da composição.
Numa sala pequena, com pouca luz e muita intensidade, isso pode resultar numa linguagem visual muito forte.
O ângulo de visão e a compressão dos planos
A 85mm, numa full-frame como a A7 III, oferece um ângulo de visão relativamente estreito de aproximadamente 24° horizontais.
Na prática, isto significa que tens um enquadramento mais fechado, e foi precisamente por isso que, para conseguir planos mais abrangentes e mostrar melhor a envolvência, tive de me afastar consideravelmente do palco. Esse afastamento forçado obrigou-me a pensar mais no enquadramento, a procurar posições estratégicas e a antecipar movimentos.
Mas a 85mm trata a cena de uma forma muito particular: ao aproximar visualmente o fundo e achatar a profundidade, cria a famosa compressão de planos. E essa compressão produziu exactamente o efeito visual que pretendia: aproximou visualmente os músicos uns dos outros, destacou expressões e gestos, transformou luz e fumo em camadas gráficas e deu um impacto mais dramático aos retratos de palco.
Mesmo quando me afastava para conseguir um plano mais aberto, a 85mm mantinha aquela sensação de proximidade intensa que só uma boa tele curta consegue oferecer.
A limitação da distância: o preço a pagar pela intensidade
Claro que fotografar um concerto com uma 85mm também tem dificuldades.
A primeira é óbvia: nem sempre tens espaço para recuar.
Numa sala pequena, com público, monitores, colunas, músicos em movimento e poucos ângulos disponíveis, uma 85mm pode ser exigente. Há momentos em que queres incluir mais palco, mas não consegues. Há momentos em que queres apanhar a interacção entre vários músicos, mas a distância focal obriga-te a fechar demasiado. Há momentos em que percebes que a fotografia que imaginaste simplesmente não é possível com aquela lente.
E isso é bom, porque te obriga a deixar algumas fotografias para trás.
Nem tudo tem de ser fotografado. Nem tudo precisa de entrar no enquadramento. Muitas vezes, a força de uma imagem está precisamente naquilo que decides excluir.
Com a 85mm, em vez de tentar mostrar tudo, procurei detalhes: uma mão na guitarra, um rosto iluminado por um feixe de luz, uma expressão concentrada, uma silhueta recortada contra o fumo, um gesto mais agressivo, um olhar perdido entre a música e o público.
A limitação da lente tornou-se uma forma de atenção.
A abertura f/1.4: luz, isolamento e risco
Um dos grandes motivos para escolher esta lente foi a abertura f/1.4.
Em fotografia de concerto, sobretudo em salas pequenas e com luz fraca, uma lente luminosa faz uma enorme diferença. Não é apenas uma questão de “mais desfoque no fundo”. É uma questão de sobrevivência técnica.
Quando a luz é pouca, tens três decisões principais: abertura, velocidade e ISO. Se queres congelar minimamente o movimento, não podes baixar demasiado a velocidade. Se já estás num ISO elevado, também sabes que subir muito mais pode degradar a imagem. A abertura torna-se, então, uma das grandes aliadas.
Fotografar a f/1.4 permitiu-me ganhar luz, manter a velocidade em 1/200s e trabalhar com ISO 4000, um valor que considero aceitável para este tipo de situação na Sony A7 III.
Mas f/1.4 também exige cuidado.
A profundidade de campo é curta. Muito curta. Se o músico se mexe ligeiramente, se tu respiras no momento errado, se o ponto de foco cai no microfone em vez do olho, a fotografia pode perder força. Em palco, onde tudo se move, fotografar a f/1.4 é sempre um compromisso entre luz e precisão.
Ainda assim, prefiro esse risco a uma imagem demasiado tremida por falta de velocidade.
Numa fotografia de concerto, a nitidez absoluta nem sempre é o mais importante. Mas a expressão, o gesto e a presença precisam de sobreviver. E, para isso, a velocidade tem de ser suficiente.
O desafio de focar com pouca luz
Um dos pontos mais difíceis ao fotografar com uma 85mm f/1.4 em concerto é o foco.
Com pouca luz, fumo e movimento, o autofocus pode ter dificuldade em acompanhar o sujeito. Além disso, a profundidade de campo curta não perdoa muito. Se o ponto de foco cai ligeiramente à frente ou atrás, a fotografia perde impacto.
Nestes contextos, tento simplificar. Em vez de confiar que a câmara vai resolver tudo sozinha, procuro momentos em que o músico entra numa zona de luz mais definida. Tento antecipar movimentos repetidos, como a aproximação ao microfone, a posição das mãos no instrumento ou o momento em que o rosto se levanta para a luz.
Fotografar concertos não é apenas reagir. Também é observar padrões.
Muitos músicos repetem gestos. Aproximam-se do microfone de forma previsível. Movem-se entre zonas do palco. Inclinatam-se sobre o instrumento. Viram-se para a luz. Quando começas a perceber esse ritmo, consegues antecipar melhor.
E antecipar, em fotografia de concerto, vale tanto como dominar a técnica.
Os meus settings — e por que os escolhi
Fotografei toda a noite em Modo Manual porque, em concertos, procuro consistência. A luz muda constantemente e não quero que a câmara tome decisões aleatórias.
- Modo Manual (M): controlo total da exposição e coerência entre imagens.
- Velocidade 1/200s: o meu mínimo seguro para congelar movimentos rápidos de palco.
- Abertura f/1.4: a alma da Viltrox. Mais luz, mais isolamento, mais drama.
- ISO 4000: com a abertura que escolhi (f/1.4) e a velocidade mínima necessária para congelar movimento (1/200s), ISO 4000 garantiu uma exposição adequada dentro da luz desafiante da ARCM.
Em Manual, a decisão continua comigo, a câmara pode dar-me uma referência através do fotómetro, mas sou eu que decido se quero proteger o rosto do músico, deixar o fundo cair na sombra, preservar o ambiente escuro da sala ou aceitar uma imagem mais contrastada.
A velocidade de 1/200s foi escolhida como compromisso. Em concertos com muito movimento, pode não ser suficiente para congelar tudo. Mas, para este contexto, permitiu-me manter uma boa relação entre nitidez, luz disponível e atmosfera.
A abertura f/1.4 deu-me a luz necessária e ajudou a separar os músicos do fundo.
O ISO 4000 foi o ponto onde senti que ainda conseguia uma imagem utilizável, com ruído presente, mas aceitável dentro da estética deste concerto.
E aqui é importante dizer isto: em fotografia de concerto, o ruído não é sempre um problema. Muitas vezes faz parte da linguagem visual daquele ambiente. O que não quero é ruído sem intenção, provocado por uma exposição demasiado frágil ou por uma edição exagerada. Mas algum ruído, numa sala escura, com fumo, luz agressiva e música pesada, pode até reforçar a sensação de realidade.
Porque optei pelo preto-e-branco
Grande parte das imagens deste concerto foi editada em preto-e-branco, não por falta de cor, mas por intenção.
O PB, em ambientes como a ARCM, funciona quase como um segundo idioma visual — mais cru, mais directo, mais emocional.
- Prioriza a expressão: sem cor, tudo se resume ao essencial, à energia, aos gestos e à intensidade.
- O fumo e a luz tornam-se textura: a luz atravessa o fumo de forma mais gráfica, teatral e cinematográfica.
- Resolve cores difíceis: LEDs exagerados e misturas estranhas desaparecem, sobra o contraste e o momento.
- Une visualmente bandas diferentes: três bandas, três estilos, três iluminações, mas um só fio narrativo.
- Eleva o look da 85mm: a compressão e o bokeh suave desta lente ganham força em PB.
Menos equipamento, mais intenção
Sair apenas com uma lente não me limitou — obrigou-me a ver melhor.
A fotografar com intenção.
A procurar momentos e não apenas situações.
No final da noite trouxe menos fotos do que o habitual, mas trouxe as que queria: imagens que contam a história que vivi e que quero continuar a desenvolver na minha fotografia de concertos.
Seleção Final de Imagens das Bandas
Mata-Ratos: intensidade directa e presença de palco
Os Mata-Ratos trouxeram uma energia crua, directa e sem adornos. É o tipo de banda que pede uma fotografia frontal, intensa, com pouco espaço para suavizar o que está a acontecer.
Com a 85mm, procurei aproximar visualmente os músicos, destacar expressões e transformar o caos do palco numa série de retratos com força. A distância focal ajudou-me a concentrar a imagem no essencial: rosto, atitude, gesto e presença.
Aqui, o preto-e-branco funcionou muito bem porque retirou distracções e deixou a energia mais directa. A imagem ficou mais dura, mais gráfica e mais próxima da sensação física do concerto.
Against Them All: movimento, entrega e reacção rápida
Fotografar os Against Them All, o desafio foi lidar com mais movimento e muita entrega em palco. Este tipo de actuação exige atenção constante porque a fotografia pode aparecer em qualquer instante: uma inclinação do corpo, uma mão levantada, uma expressão mais agressiva, uma ligação momentânea com o público.
A 85mm obrigou-me a escolher bem os momentos. Não dava para apanhar tudo. Tinha de esperar pelo gesto certo, pela luz certa e pela distância certa.
Foi aqui que senti mais a importância de trabalhar com uma velocidade segura. A energia em palco era intensa e qualquer descida excessiva na velocidade poderia comprometer a força das imagens.
Awaiting The Vultures: atmosfera, fumo e contraluz
Com os Awaiting The Vultures, a abordagem foi diferente. A atmosfera ganhou mais peso. A luz, o fumo e o contraluz criaram imagens mais densas, mais misteriosas e mais cinematográficas.
A 85mm foi particularmente interessante neste contexto porque comprimiu as camadas de fumo e luz, criando uma sensação de profundidade muito forte. Em vez de procurar apenas retratos, tentei usar o ambiente como parte da narrativa.
Aqui, o preto-e-branco voltou a ser uma escolha natural. O fumo tornou-se textura, a luz tornou-se recorte e as sombras ganharam presença.
Foi talvez o momento em que a lente mostrou melhor a sua capacidade de transformar uma sala pequena num espaço visualmente muito expressivo.
O que aprendi ao fotografar este concerto com uma só lente
Fotografar este concerto apenas com uma 85mm confirmou algo que considero cada vez mais importante: a limitação pode ser uma ferramenta criativa.
Quando tens menos opções, és obrigado a olhar melhor.
Quando não podes resolver tudo com equipamento, tens de resolver com posição, tempo, atenção e intenção.
Quando aceitas que nem todas as fotografias são possíveis, começas a procurar as que realmente importam.
Uma 85mm não é a lente mais óbvia para fotografar concertos em salas pequenas. Pode ser apertada, exigente e até frustrante em certos momentos. Mas também oferece uma linguagem visual muito forte: compressão, isolamento, retrato, drama e proximidade emocional.
Para mim, foi essa a grande vantagem.
Não fotografei o concerto todo da forma mais completa possível. Fotografei-o a partir de uma escolha.
E essa escolha deu unidade às imagens.
Vale a pena fotografar concertos com uma 85mm?
Sim, vale.
Mas não como solução para tudo.
Uma 85mm não substitui uma grande angular quando queres mostrar a sala inteira. Não substitui um zoom quando precisas de versatilidade. Não é a lente mais prática se estás muito perto do palco e não tens espaço para recuar.
Mas se o teu objectivo é criar imagens mais fechadas, expressivas, intensas e com forte separação entre sujeito e fundo, uma 85mm pode ser uma ferramenta excelente.
É uma lente para retratos de palco.
- Para expressões.
- Para gestos.
- Para luz dramática.
- Para fumo.
- Para momentos em que o concerto deixa de ser apenas documentação e passa a ser interpretação visual.
E talvez seja essa a parte que mais me interessa na fotografia de concerto: não fotografar apenas o que aconteceu, mas fotografar como aquilo se sentiu.
Conclusão
Fotografar este concerto apenas com uma 85mm obrigou-me a sair da zona de conforto, a mexer-me mais, a decidir melhor e a confiar realmente na minha visão. É incrível como limitar o equipamento te obriga a ver de outra forma: ficas mais atento, mais intencional e mais ligado ao que está a acontecer em palco.
E é por isso que te deixo este desafio: numa próxima saída fotográfica, deixa o zoom em casa e leva apenas uma distância focal desafiante. Pode ser uma 35mm, uma 50mm, uma 85mm… o que te quiseres pôr à prova.
No início pode parecer estranho, até frustrante — mas rapidamente vais perceber que essa limitação te dá liberdade. Obriga-te a compor melhor, a antecipar momentos e a fotografar com mais intenção.
A fotografia cresce quando tu cresces.
Experimenta.
Arrisca.
E diverte-te com o processo — porque vale mesmo a pena.
Perguntas Frequentes
Em concertos com pouca luz, uma abertura grande, como f/1.4, f/1.8 ou f/2, pode ajudar muito. Permite captar mais luz, manter velocidades mais seguras e isolar melhor o músico do fundo. O desafio é garantir foco preciso, porque a profundidade de campo é curta.
Queres aprender a contar histórias com a tua câmara?
Junta-te à formação de fotografia em Faro (Algarve) — workshops com experiências práticas, intensivas e inspiradoras, criadas para te ajudar a ver o mundo com novos olhos e dominar a arte de fotografar com intenção.








