Sempre gostei de música alternativa — do metal ao hardcore — e ao longo dos anos assisti a muitos concertos. Normalmente, a memória que trazia para casa era apenas a experiência vivida: o som, a energia, as pessoas. Mas desta vez quis levar algo mais comigo. Pela primeira vez, propus-me a fotografar um concerto.
Decidi fazê-lo de forma simples, com apenas uma lente: a Tamron 20 mm f/2.8. Não foi por acaso. Queria experimentar as características de uma grande-angular fixa e perceber de que forma poderia usá-la para registar a intensidade de um espetáculo ao vivo.
Quero deixar um agradecimento especial à Associação Algarve Alternativo (A3) por mais uma edição do Muralhas Summer Fest III. Foram dois dias intensos de concertos, de música ao vivo e de partilha, onde cada banda presente ajudou a criar um ambiente único.
O impacto da perspetiva
Fotografar com uma 20 mm é tudo menos neutro. A tendência natural desta lente é afastar os planos, e por isso precisei de me aproximar bastante da ação. Essa proximidade, aliada ao ângulo baixo, permitiu-me criar imagens carregadas de energia e presença.
Nas fotografias que de seguida partilho, a distorção foi usada a meu favor.
Na primeira fotografia o guitarrista ganha um impacto quase físico, como se estivesse prestes a sair do enquadramento. Esta lente obriga-nos a arriscar, a procurar ângulos menos óbvios e a deixar que a perspetiva faça parte da narrativa.
- Ângulo extremo e proximidade: A lente grande angular, usada tão perto do guitarrista, cria um efeito quase escultórico. As pernas alongam-se de forma dramática e abrem espaço para o enquadramento respirar por baixo, colocando o espectador literalmente “aos pés do músico”.
- Protagonismo visual: O guitarrista domina a imagem. A distorção faz com que ele pareça maior do que a vida real, reforçando a ideia de palco, de ídolo, de espetáculo. A guitarra torna-se uma extensão do corpo, ampliada pelo ângulo ascendente.
- Profundidade da cena: Entre as pernas abertas do músico vemos o baterista, enquadrado de forma quase teatral. Aqui a distorção não afasta — integra. A lente abre espaço para que a banda não se perca, criando uma narrativa de camadas: guitarrista em primeiro plano, bateria no fundo, e as luzes a reforçar a atmosfera.
- Energia gráfica: As linhas convergentes das pernas e do braço da guitarra conduzem o olhar do espectador para cima, intensificando o dramatismo da pose. Tudo aponta para a energia do momento.
- Atmosfera de palco: A iluminação dura e o fumo ajudam a compor a sensação de espetáculo cru e intenso. Mas é a perspetiva que dá à fotografia a sua força: em vez de uma visão neutra do concerto, temos um ponto de vista que transporta o leitor para a própria experiência de estar junto ao palco.
Em resumo: esta fotografia mostra como a 20 mm não só regista a performance, mas a amplifica. O guitarrista torna-se um gigante no enquadramento, enquanto o baterista completa a narrativa no plano de fundo. É a distorção usada a favor da música — a fotografia como extensão da energia do concerto.
Perspectiva: Análise Fotografia
- Ângulo baixo + proximidade: O enquadramento de baixo para cima confere monumentalidade à figura principal (o vocalista), que ocupa quase todo o primeiro plano. A perna elevada e a mão esticada criam linhas que puxam o olhar para fora do quadro, reforçando a sensação de poder e intensidade.
- Efeito físico da distorção: O guitarrista, posicionado ligeiramente atrás, parece projetar-se para a frente graças ao afastamento natural dos planos pela grande angular. Há quase um “salto” tridimensional que cria a tal presença física que referiste — como se o público pudesse sentir a proximidade do músico.
- Energia visual: A perspetiva radical da 20 mm transforma a ação num registo mais visceral. A composição não é apenas documental; é performativa, transmite a força do concerto.
- Narrativa da perspetiva: A distorção deixa de ser um “defeito” e torna-se narrativa: em vez de neutralidade, tens impacto, exagero e dinamismo. A perna elevada do vocalista torna-se um elemento gráfico dominante, quase escultórico, que conduz a leitura da imagem.
- Atmosfera: O fumo, a iluminação traseira e o enquadramento contra o céu negro completam a sensação de palco épico, amplificada pela escolha da lente e do ponto de vista.
Em resumo: esta fotografia mostra como a 20 mm, quando usada de forma consciente, não só documenta mas também transforma a cena num gesto visual intenso, onde a perspetiva é parte integrante da história.
Lidar com a luz que existe
O palco apresentava um desafio curioso. A luz frontal incidia mais nos pés e pernas dos músicos do que no rosto. Em vez de lutar contra essa limitação, decidi trabalhar com a luz de fundo, usando-a para recortar silhuetas e criar atmosfera.
Para conseguir registar a cena, tive de subir o ISO até 8000 (comecei a usar ISO 4000). Mesmo com essa sensibilidade elevada, foi necessário ajustar a exposição e aceitar algum ruído digital como parte inevitável do processo. No entanto, o resultado acabou por compensar: as sombras, o fumo e os contraluzes deram-me imagens mais dramáticas, e o ruído acrescentou até uma textura interessante, quase a condizer com a crueza do ambiente musical.
Fotografar concertos é também isso: adaptar-se à luz disponível, arriscar nos ajustes técnicos e transformar limitações em recursos criativos.
Luz: Análise Fotografia
- A iluminação frontal do palco incidia principalmente sobre as pernas e pés dos músicos.
- Essa distribuição de luz deixou os rostos em sombra, dificultando a leitura da expressão facial.
- O resultado visual centra a atenção no corpo e na postura em palco, em vez do rosto.
- Esta condição tornou a fotografia mais desafiadora, mas também ajudou a criar um ambiente dramático e diferente do habitual.
Não só o palco
Embora a atenção estivesse naturalmente nos músicos, não quis que a cobertura se limitasse a um registo isolado das figuras em palco. Para mim, um concerto é feito de muitas camadas: quem toca, quem assiste, quem vibra. É um diálogo constante entre palco e público, entre a energia projetada e a energia recebida.
A imagem que partilho aqui é um bom exemplo disso. Colocado bem próximo do guitarrista, usei a grande-angular para lhe dar uma presença quase monumental. Mas, ao mesmo tempo, a lente permitiu-me incluir o baterista lá atrás, em segundo plano, sem perder definição nem contexto. Essa sobreposição de planos — ampliada pela perspetiva da 20 mm — reforça a ideia de conjunto: não é apenas um músico, mas a banda, a música e o momento em plena construção.
Tecnicamente, esta é uma das grandes vantagens de trabalhar com uma 20 mm em concertos: conseguimos aproximar-nos ao máximo da ação e ainda assim incluir no enquadramento outros elementos importantes — seja outro músico em palco, seja a reação do público. Esta capacidade de criar imagens com várias camadas narrativas transforma cada fotografia numa espécie de “janela aberta” para o ambiente do concerto.
Foi também isso que procurei quando fotografei o público. Aproximei-me da primeira fila e deixei que a 20 mm captasse não só a expressão intensa de quem estava à frente, mas também o palco em fundo. Noutras imagens, usei a amplitude da lente para mostrar o espaço, a multidão e os músicos ao mesmo tempo, criando uma leitura mais completa do espetáculo.
Ao intercalar estas perspetivas, sinto que trouxe para casa não apenas fotografias dos músicos, mas sim fragmentos da experiência coletiva que foi o concerto.
Análise Fotográfica:
- Energia captada: A imagem respira movimento. Os corpos no mosh pit, os gestos intensos, as expressões carregadas — tudo transmite a energia crua da música e a forma como o público a absorve e devolve. Não é uma cena estática, é pura ação.
- Camadas narrativas: O palco continua lá ao fundo, envolto em fumo e luz, mas a ação principal está no público, em primeiro plano. Isso cria uma narrativa completa: não é só a banda a tocar, é a interação direta entre palco e audiência. O concerto vive nas duas direções.
- Proximidade física: Fotografar com a 20 mm obriga-te a estar dentro da cena. Essa proximidade dá intensidade à imagem — não é um registo distante, é como se estivéssemos a viver o mosh pit contigo. O espectador sente-se arrastado para dentro da ação.
- Composição envolvente: A distorção natural da grande angular amplia os gestos e aproxima os corpos do espectador. As diagonais criadas pelos movimentos reforçam a sensação de caos e energia, tornando a fotografia quase palpável.
- Atmosfera visual: O fumo colorido mistura-se com a iluminação de palco e envolve tanto banda como público, criando uma unidade entre os dois lados. Aqui não há fronteira clara: a energia do público é parte do espetáculo.
As lentes com maiores aberturas
Durante este concerto fotografei apenas com a Tamron 20 mm f/2.8. Isso obrigou-me, em várias situações, a subir o ISO até 8000 (nunca baixando de ISO 4000) para manter uma velocidade adequada e não comprometer a nitidez da ação. Na grande maioria das fotografias usei a velocidade de 1/160 seg.
Equilíbrio com ISO e abertura
Em concertos á noite, e este em particular dada as condições de iluminação disponíveis em palco como referi anteriormente, a luz era limitada. Usar 1/160 permitiu manter um equilíbrio aceitável entre nitidez e entrada de luz, sem ter de subir demasiado o ISO.
Se tentasses velocidades de 1/250 ou 1/320, o ISO teria de subir bastante mais, aumentando (ainda mais) o ruído.
Na prática, para passar de 1/160 para -> 1/250 ou seja, 2/3 de stop mais rápido (1/160 → 1/200 → 1/250), o ISO teria de subir de 8000 para cerca de 12 800. Esse acréscimo traria mais ruído, mas também mais capacidade de congelar movimentos rápidos — como uma baqueta em pleno golpe ou um salto em palco.
É sempre este o dilema na fotografia de concertos: congelar ou aceitar movimento. No meu caso, preferi manter-me nos 1/160 seg, aceitando algum arrastamento em gestos mais rápidos, porque o ganho de luz e a redução do ruído acabaram por pesar mais na balança.
Agora, imaginemos que tivesse usado uma lente com abertura f/1.4 em vez de f/2.8. Mantendo a mesma velocidade, poderia ter reduzido o ISO de 8000 para cerca de 2000 — uma diferença significativa no que toca a ruído e na “qualidade” da imagem.
Mas surge aqui uma questão interessante: será que a ausência de ruído é sempre uma vantagem? Na fotografia de concertos, onde a música é crua, intensa e por vezes caótica, o próprio ruído digital pode acrescentar uma textura estética que reforça esse ambiente. Em algumas imagens, senti precisamente isso: o grão ajudava a dar um caráter mais visceral à cena, quase como se a fotografia tivesse absorvido a energia áspera da música.
Claro que uma lente f/1.4 abriria outras possibilidades criativas — não só pela redução do ISO, mas também pela profundidade de campo mais curta, capaz de destacar ainda mais detalhes e isolar elementos. No entanto, fotografar com f/2.8 obrigou-me a aceitar o desafio e, de certa forma, deixou que o ruído se tornasse parte da narrativa visual.
NOTA: Quando falamos em compensar a exposição, o valor exato que resulta do cálculo para subir de 1/160s, f/2.8, ISO 8000 para 1/250s é ISO 12 500. No entanto, esse número raramente aparece no menu da câmara. A razão é simples: os fabricantes trabalham com incrementos normalizados de 1/3 de stop, e entre ISO 6400 e ISO 12 800 os valores disponíveis são 8000, 10 000 e depois 12 800. Ou seja, a câmara arredonda para o valor mais próximo, que neste caso é ISO 12 800 — praticamente idêntico a 12 500 (a diferença é de apenas 0,03 stops, irrelevante na prática).
Exemplo prático:
Se mantiveres a mesma velocidade (1/200seg):
f/2.8, ISO 8000
-> f/2.0, ISO 3200 (−1 stop)
-> f/1.4, ISO 2000 (−2 stops)
Ou seja, ao abrires de f/2.8 para f/1.4 podes descer o ISO de 8000 para 2000 mantendo a mesma velocidade de obturação.
Limitar-se para aprender
Optar por uma lente fixa de 20 mm foi uma limitação consciente. Mas foi também o que me obrigou a procurar perspetivas novas, a mover-me mais, a pensar cada fotografia com mais intenção.
No fim, esta primeira experiência de fotografar um concerto mostrou-me que trazer imagens para casa não é muito diferente de trazer memórias: ambas guardam um pedaço da intensidade vivida. A diferença é que, através da fotografia, consigo partilhar esse pedaço com os outros — e talvez prolongar um pouco mais a energia que só um concerto ao vivo consegue oferecer.
Conclusão
Fotografar o meu primeiro concerto foi, acima de tudo, uma lição de adaptação e descoberta. Entre luzes difíceis, ruído digital e perspetivas arriscadas, percebi que a fotografia de concertos não se trata de procurar a perfeição, mas sim de captar a intensidade do momento.
A limitação de usar apenas uma 20 mm obrigou-me a aproximar, a experimentar ângulos pouco óbvios e a contar a história não só do palco, mas também do público. Foi desafiante, mas sobretudo recompensador.
Se também gostas de música e tens curiosidade em fotografar concertos, arrisca. Leva a tua câmara, aceita a imprevisibilidade da luz e deixa-te envolver pela energia. No final, vais trazer contigo não apenas fotografias, mas memórias visuais que te farão reviver cada acorde.
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