Fotografia de natureza por: Pedro Henriques
Um lugar onde o tempo escorre devagar e a água sussurra memórias.
Pedro Henriques convida-nos a ver, sentir e respirar a paisagem.
Começa-se no Parque do Santuário do Coração de Maria, em Castelões. É ali que se dá o primeiro passo da chamada Rota Gastronómica — um percurso circular que serpenteia encostas da serra, atravessa caminhos de calçada portuguesa, zonas agrícolas e manchas densas de carvalhos, eucaliptos, sobreiros e medronheiros. Nos primeiros quilómetros, mais exigentes em declive, o ar fresco e o som da água já anunciam o que aí vem: uma caminhada entre sombra, história e silêncio.
Antes de chegar à aldeia de Múceres, há uma pausa natural junto à pequena represa. Para quem caminha com atenção, é possível surpreender sinais de fauna discreta — uma rã, um esquilo, o voo fugaz de um pássaro. E quando finalmente se entra na aldeia, é impossível não parar na antiga escola primária, hoje transformada no Centro de Laboração do Linho, onde se preservam técnicas antigas, tecidos e memórias que dão nome ao trilho.
A partir dali, o percurso mergulha em paisagem mais íntima: moinhos, ribeiras, cascatas e o som constante da água a correr entre musgo e pedra. São 8,8 km, mas é na primeira metade — mais acidentada e rica em surpresas — que Pedro Henriques nos convida a parar, a olhar e a escutar. Neste post, acompanhamos o seu olhar. Um olhar de dentro.
Já conheces as expedições fotográficas ao Caramulo?
À conversa com Pedro Henriques na Rota Gastronómica
(Castelões, Tondela)
— Como é que escolheste este trilho? O que te atraiu na Rota Gastronómica?
(Pedro): Eu vivo em Castelões, por isso este trilho começa quase à porta de casa. Já o conhecia de caminhadas antigas, mas nunca o tinha percorrido com a intenção de o fotografar de forma mais profunda. E o nome — “Rota Gastronómica” — também diz muito. Lembra-me o passado da aldeia, as histórias que ouvi em pequeno. Às vezes, o que está mais perto é o que demora mais tempo a ser verdadeiramente visto.
— E o que encontraste desta vez, ao percorrê-lo com a câmara?
(Pedro): Encontrei memórias que não estão em lado nenhum — só mesmo ali. O som dos riachos, o cheiro da terra molhada, as árvores cobertas de líquenes e musgo… É um lugar com uma beleza que não precisa de ser grandiosa. É uma beleza silenciosa. E para quem vive aqui, é uma espécie de refúgio. Há partes do percurso onde parece que o tempo abranda. E é aí que gosto de fotografar.
— Paraste muitas vezes para fotografar?
(Pedro): Bastantes. Mas há uma diferença entre parar e fotografar logo. Paro primeiro para estar ali. Ouço. Sinto o lugar. E só depois, se fizer sentido, fotografo. Não é automático. Nunca foi. Mesmo em sítios que conheço desde miúdo, como este, há sempre qualquer coisa que só se revela quando estamos verdadeiramente presentes.
— As tuas imagens transmitem muita calma. É algo que procuras intencionalmente?
(Pedro): É o que me faz sentido. Não procuro dramatismo. Procuro equilíbrio. Gosto que quem vê as fotografias sinta que pode respirar com elas. Que pode parar um bocado. É isso que os lugares daqui me dão — um ritmo mais lento, mais humano. Tento traduzir isso na imagem.
— Como é fotografar num lugar que te é tão familiar?
(Pedro): É especial. Mas também exige outro tipo de atenção. Quando conhecemos um lugar há muitos anos, é fácil deixarmo-nos cair na rotina visual. O desafio é olhar como se fosse a primeira vez. E isso é uma escolha: ir com tempo, com curiosidade, com respeito. E às vezes surpreendo-me. É bonito perceber que, mesmo depois de tanto tempo, a serra ainda me mostra coisas novas.
— Costumas voltar aos mesmos lugares para fotografar? Revisitas o trilho da Rota Gastronómica com frequência?
(Pedro): Sim, volto muitas vezes. E gosto de o fazer em diferentes alturas do ano. A luz muda, o verde ganha tons diferentes, há mais ou menos água. E mesmo que o caminho seja o mesmo, eu não sou o mesmo — e isso muda a forma como olho para tudo. Há dias em que passo por um sítio onde já fotografei e, ainda assim, vejo ali uma nova fotografia à espera.
— O que é que ganhas ao voltar tantas vezes ao mesmo lugar?
(Pedro): Ganha-se intimidade. E essa intimidade ajuda-nos a ir mais fundo, a procurar menos o que é “fotogénico” e mais o que é verdadeiro. Quanto mais vezes volto, mais me apercebo do que está ali — não só na paisagem, mas também em mim. Acho que fotografar lugares familiares é uma forma de auto-retrato disfarçado.
— Que recomendarias a quem pretende visitar este local e fazer fotografias como as tuas?
(Pedro): A primeira coisa que diria é: vai com tempo. Não marques mais nada nesse dia. Esquece o relógio. Esta rota não é sobre quantidade nem velocidade. A fotografia que faço aqui nasce da lentidão, da escuta, da presença. Se fores com pressa ou com ideias demasiado feitas do que queres captar, corres o risco de não veres nada do que o lugar tem para te mostrar.
Depois, recomendo que caminhes em silêncio. Ou pelo menos com o mínimo possível de distrações. Escutar o som da água, o estalar das folhas, o vento entre os ramos — tudo isso ajuda a afinar o olhar. E o olhar afiado vê o que escapa aos outros.
Do ponto de vista técnico, sim, um tripé é essencial se quiseres fazer longas exposições da água. E um filtro ND ajuda a controlar a luz, sobretudo nas zonas mais abertas. Mas a técnica vem depois. O mais importante é sentares-te à beira do riacho e estares ali uns minutos sem a câmara. Só a sentir.
Ah, e se possível, volta mais do que uma vez. Vai num dia húmido, depois num dia com nevoeiro, depois noutro com sol rasante. Vais ver como o mesmo lugar se transforma. E como tu também mudas com ele.
Anotações Visuais – Fotografar a Rota Gastronómica
por Pedro Henrriques
A quietude construída
Esta fotografia é, para mim, sobre equilíbrio e contenção. A composição é simples: uma queda de água delicada, uma superfície calma, um tronco caído em primeiro plano. Mas foi precisamente esse aparente minimalismo que me interessou — o que acontece quando tiramos quase tudo, e só fica o essencial.
Usei uma exposição de 5 segundos, diafragma bem fechado (f/13) e ISO baixo. Queria preservar ao máximo o detalhe — o veludo do musgo, as texturas do tronco — e ao mesmo tempo deixar que a água se desfizesse em suavidade.
O tronco caído deu-me um ponto de entrada no enquadramento. É ele que conduz o olhar, que ancora a imagem. E também serve de contraste: seco e áspero, frente ao húmido e ao fluido.
Esta é daquelas imagens que não gritam. Mas que, se nos sentarmos com ela, talvez nos digam alguma coisa.
A fluidez e o enquadramento
Nesta fotografia procurei uma leitura frontal da cena. A água ocupa quase todo o primeiro plano, espelhando o céu e ganhando uma tonalidade dourada. Quis que esse “tapete líquido” nos levasse até à cascata ao fundo, como se fosse uma estrada suave em direção ao som.
O posicionamento das pedras ajudou — parecem organizar-se naturalmente em camadas. Não precisei de compor muito, apenas alinhar-me com o que já estava ali. O moinho de água ao fundo dá escala, mas também marca a presença humana antiga naquele lugar.
Gosto do modo como a imagem transmite paz sem ser estática. Tudo se move: a água, a luz, até as folhas presas no musgo. Mas move-se devagar.
É isso que tento captar: o movimento lento das coisas que quase não vemos, mas sentimos.
A força tranquila
Esta é talvez uma das imagens em que mais se sente o movimento como silêncio. Há uma intensidade natural na força da água, mas tudo foi fotografado de forma a que o som se tornasse quase sussurro.
Gosto da maneira como o olhar entra — vem do canto inferior direito, serpenteia entre as rochas e vai encontrar o centro na parede da cascata. A fotografia orienta-nos, mas sem rigidez.
Os musgos têm aqui uma presença quase táctil. Quis preservar essa textura com detalhe, e ao mesmo tempo deixar que a água desenhasse formas suaves, quase abstractas. É essa convivência entre o sólido e o fluido que me interessa — a rocha que fica e a água que passa.
No fundo, é uma fotografia sobre equilíbrio. Entre forças opostas. E sobre o que acontece quando não tentamos controlar o lugar — apenas escutá-lo.
As linhas da água
Esta fotografia tem algo que me agrada muito: a sensação de que a água procura caminhos por conta própria. Não há uma queda principal. Há várias direções possíveis, como se o tempo ali se dividisse em pequenos ramos.
A diagonal das pedras cria tensão, mas a fluidez da água resolve-a. Tudo parece escorregar lentamente para o canto inferior direito, como um suspiro.
Não é uma imagem monumental — não há aqui um grande momento. Mas é precisamente isso que me interessa: captar o modo como a paisagem se organiza sozinha, sem pedir atenção.
A fotografia, neste caso, é quase um gesto de aceitação. Um “sim” ao que está ali, tal como está.
Quando o Olhar Acompanha o Silêncio
É incrível como o olhar se adapta ao silêncio. Ao chegar a este ponto do percurso, deixei de procurar ‘a grande fotografia’ e comecei só a observar — o som da água, o musgo espesso, as pedras encaixadas como se sempre lá estivessem. Esta imagem nasceu desse estado de atenção tranquila. A composição surgiu quase sozinha: o curso da água, o tronco a atravessar a cena e a luz que filtrava por entre as árvores fizeram o resto. Fotografar aqui foi, mais do que um ato técnico, uma forma de estar presente.
As linhas da água
Esta é daquelas fotografias em que senti que estava dentro da paisagem, e não apenas perante ela. A vegetação fechava-se à volta, quase como um abrigo. Tudo era húmido, saturado, vivo.
A verticalidade do enquadramento serviu para seguir o percurso da água — desde o ponto mais alto até ao primeiro plano, onde ela praticamente nos toca. O olhar é guiado com suavidade, mas sem perder a energia do movimento.
Nada aqui é grandioso, mas tudo é intenso. Há um certo caos natural — ramos, folhas, pedra, sombra — e mesmo assim, tudo encaixa. O papel da fotografia, nestes casos, não é organizar… é aceitar. E mostrar que o aparente desordem também tem ritmo.
Esta imagem é talvez a mais “bosque” de todas. E talvez por isso, a que me levou mais tempo a deixar.
A presença no lugar
Nesta imagem, ali estás tu — sentado entre as pedras, no meio do curso de água, com o casaco vermelho a contrastar com o verde profundo do musgo. É uma fotografia sobre presença. Sobre parar no lugar certo, sem pressa.
Não é apenas uma composição bonita — é um momento vivido. Um instante em que o corpo repousa e o olhar se alinha com o que o rodeia. A água corre em volta, mas tu permaneces. E isso, para mim, é o que a fotografia procura tantas vezes: alguém que não esteja apenas a passar, mas a estar.
Gosto especialmente da luz — a forma como atravessa as folhas e desenha o teu contorno, como se o lugar te reconhecesse ali. E te aceitasse.
Sobre o percurso
- Localização: Castelões, concelho de Tondela, distrito de Viseu
- Tipo de percurso: Circular
- Distância total: 8,8 km
- Duração média: aproximadamente 4 horas
- Sentido recomendado: Anti-horário
- Coordenadas GPS (início): 40.54659, -8.15633
- Altitude mínima: 229 metros
- Altitude máxima: 518 metros
- Dificuldade: Alta (os primeiros 4 km concentram o maior desnível)
- Marcações no terreno: Sim, o percurso está sinalizado
Mais informações:
Dicas práticas para fotografar na Rota Gastronómica
Para quem quiser explorar este trilho com a câmara, aqui ficam algumas sugestões simples e valiosas, inspiradas na abordagem do Pedro:
- Tempo e calma: Dedica uma manhã ou um dia inteiro, sem pressas.
- Tripé estável: Essencial para exposições longas, especialmente junto à água.
- Filtro ND: Ajuda a prolongar a exposição mesmo com muita luz ambiente.
- Luz suave: Dias nublados ou húmidos criam ambientes ideais para este tipo de fotografia.
- Ouvir primeiro, fotografar depois: A observação atenta é o primeiro passo.
- Revisita o local: Cada estação e cada dia oferecem uma nova leitura do lugar.
Agradecimento
Agradeço ao Pedro Henriques por me ter levado até à Rota Gatronómica — não com os pés, mas com o olhar atento, as palavras generosas e as imagens serenas que partilhou. Mais do que mostrar fotografias, o Pedro mostrou-me uma forma de estar: presente, silenciosa, respeitadora. Cada fotografia nasce de tempo, escuta e ligação ao lugar.
A Rota Gastronómica não é apenas um trilho serrano — é um território onde a fotografia abranda, onde a luz encontra o musgo, e a água nos fala devagar. O acto de fotografar ali não é só técnica. É contemplação. É presença.
Que este olhar inspire outros a abrandar, a observar, a deixar que o lugar se revele — antes de o transformar em imagem.
Obrigado, Pedro.
Sobre o autor das fotografias
Pedro Henriques é fotógrafo a residir em Tondela, com interesse particular por longa exposição, macrofotografia, fotografia de eventos e composições construídas com cuidado e uma abordagem contemplativa à imagem.








