Há dias que ficam gravados não apenas pelas fotografias que fazemos, mas pelo que representam no nosso percurso. Este texto nasce desse lugar: de um (re)início. Um regresso consciente à fotografia de paisagem e à longa exposição, feito com tempo, atenção e partilha.
Este artigo é uma continuação natural de uma experiência mais ampla vivida no Caramulo, que descrevi em detalhe neste artigo: Experiência de fotografia de longa exposição em quedas de água no Caramulo.
O que partilho agora é mais íntimo. É sobre o que senti, o que aprendi e sobre três fotografias que marcaram esse dia.
Um dia que marcou o meu (re)início
A Cascata das Paredes, em Mortágua, foi o cenário escolhido — ou talvez o cenário que me escolheu a mim. Um local envolto em verde, silêncio interrompido apenas pelo som constante da água e pela humidade típica das zonas de ribeira.
Este não foi um dia de pressa. Foi um dia de observar, de errar, de ajustar e, acima de tudo, de reaprender a olhar.
Ter o Pedro Henriques comigo fez toda a diferença. Não como alguém que impõe regras, mas como alguém que questiona, sugere e acompanha. A sua ajuda foi essencial para ganhar confiança novamente: na leitura da luz, na escolha do enquadramento e, sobretudo, na paciência necessária para a fotografia de longa exposição.
A abordagem técnica (simples, mas consciente)
Todas as fotografias deste artigo foram realizadas no mesmo local e com a mesma filosofia, tanto técnica como criativa.
Definições de câmara
- Modo de Exposição: Manual
- Exposição: 10 segundos
- Abertura: f/8
- ISO: 320
A escolha dos 10 segundos não foi aleatória. Esta velocidade permitiu transformar o movimento da água de forma fluida e contínua, sem a tornar excessivamente etérea ou artificial. Foi um equilíbrio pensado entre mostrar o movimento e manter alguma leitura da estrutura da cascata.
Em quedas de água, tempos demasiado longos podem fazer desaparecer completamente a textura da água. Aqui, os 10 segundos ajudaram a preservar a sensação de fluxo natural, respeitando o carácter do local.
A abertura de f/8 garantiu uma boa profundidade de campo, mantendo nitidez tanto na cascata como nos elementos envolventes, sem comprometer a qualidade óptica.
O ISO 320 foi utilizado como ajuste fino de exposição, permitindo alcançar o tempo desejado sem forçar excessivamente a abertura ou recorrer a tempos ainda mais longos. Uma decisão consciente, feita no terreno, em função da luz disponível.
A técnica esteve sempre ao serviço da sensação — nunca o contrário.
Filtros utilizados
- Filtro ND de 6 stops
- Filtro de densidade neutra em gradiente de 3 stops
- Filtro polarizador
O filtro polarizador foi utilizado essencialmente para cortar os reflexos da água e das superfícies molhadas, permitindo revelar mais detalhe, textura e cor na cascata e nas rochas.
Para além desse controlo dos reflexos, o polarizador contribui também para a redução da quantidade de luz que entra na câmara, ajudando naturalmente a alcançar velocidades de obturação mais longas. Mesmo não sendo um filtro ND no sentido clássico, acaba por ser um aliado importante na fotografia de longa exposição em ambientes como este.** foi utilizado como ajuste fino de exposição, permitindo alcançar o tempo desejado sem forçar excessivamente a abertura ou recorrer a tempos ainda mais longos. Uma decisão consciente, feita no terreno, em função da luz disponível.
A técnica esteve sempre ao serviço da sensação — nunca o contrário.
Antes e depois da fotografia
Há algo que considero essencial reforçar quando falamos de fotografia de longa exposição em quedas de água: a edição não salva uma fotografia mal captada.
Antes de qualquer edição, houve tempo passado no local. Houve leitura da luz, escolha do enquadramento, atenção às altas luzes, controlo dos reflexos com o polarizador e equilíbrio conseguido com os filtros de densidade neutra.
Os exemplos de antes e depois que acompanham este artigo mostram precisamente isso. A imagem sem edição já contém a base de tudo: exposição correcta, composição pensada e intenção clara. A edição entra apenas como um ajuste fino — nunca como correção de erros graves.
No antes, a fotografia é honesta. No depois, é apenas mais próxima daquilo que senti no momento. Ajustes subtis de contraste, equilíbrio de tons e leitura de cor ajudam a reforçar a atmosfera, mas não alteram a essência.
Para mim, esta é a maior aprendizagem deste (re)início: quanto melhor for a fotografia no momento do clique, menos a edição se impõe depois.
A edição não é o ponto de partida. É apenas o último passo.
Análise das fotografias
Fotografia 1 — O primeiro impacto
O reencontro com a longa exposição. A água flui contínua, suave, enquanto a paisagem permanece firme — tal como este (re)início.
Nesta imagem, a cascata surge como elemento central, quase hipnótico. A longa exposição transforma a água numa linha contínua, suave, que contrasta com a solidez das rochas e com o verde denso da vegetação.
Há aqui um sentimento claro de reencontro. Um regresso a algo familiar, mas que já não tocava há algum tempo. Esta fotografia representa o momento em que senti: “sim, ainda estou aqui.”
Fotografia 2 — O caminho da água
Antes da queda final, há sempre um percurso. Um fluxo feito de tentativas, ajustes e tempo.
Nesta segunda imagem, o olhar é guiado pelo percurso da água. Não apenas pela queda final, mas por tudo o que acontece antes dela.
Foi aqui que mais senti a importância de abrandar. De esperar pelo instante certo. De ajustar milímetros no tripé, de rodar ligeiramente o polarizador, de aceitar que nem todas as tentativas resultam.
Esta fotografia fala de processo. Do percurso — na água e em mim.
Fotografia 3 — O silêncio depois do clique
Quando tudo abranda e faz sentido. Água em movimento, mente em silêncio.
A terceira imagem é talvez a mais contemplativa. A água continua em movimento, mas há uma serenidade maior no enquadramento.
Depois de várias tentativas, erros e ajustes, chegou aquele momento em que tudo encaixa. Não por perfeição técnica, mas por coerência visual e emocional.
Este foi o instante em que percebi que este dia não era apenas sobre fotografar uma cascata — era sobre voltar a confiar no meu olhar.
Mais do que fotografias
Estas três imagens não são apenas resultados finais. São marcas de um processo. Representam um dia inteiro de aprendizagem, de conversa, de silêncio e de ligação à natureza.
O (re)início não aconteceu porque fiz boas fotografias.
Aconteceu porque voltei a sentir prazer em fazê-las.
E isso, para mim, é o mais importante de tudo..
Agradecimento
Nada disto teria sido igual sem o Pedro Henriques.
Agradeço-lhe profundamente a partilha de conhecimento, a paciência, as conversas no terreno e, acima de tudo, por me ter feito descobrir este local extraordinário. Não apenas no sentido geográfico, mas na forma como me ensinou a olhar para ele.
Mais do que dicas técnicas ou escolhas de filtros, levo deste dia uma aprendizagem essencial: abrandar, observar e respeitar o ritmo do lugar.
Obrigado por teres sido parte deste (re)início.
Informação útil
Para quem quiser visitar a Cascata das Paredes e desfrutar da natureza com tempo — seja para caminhar, observar ou experimentar fotografia de longa exposição — deixo aqui o link para o trilho que dá acesso ao local.
PR1 MRT Percurso pedestre das Quedas de Água de Paredes. Mortágua
É um percurso que convida a abrandar e a respeitar o espaço, ideal para quem procura contacto com a natureza e fotografar sem pressas.








