Neste post, falámos com o João Monteiro — um apaixonado pela fotografia e, em particular, pela astrofotografia. Conversámos com o João sobre o seu percurso, as primeiras memórias ligadas à imagem e o fascínio de fotografar o céu noturno, onde o tempo parece ter outro ritmo e a luz ganha um novo significado.
É sempre um privilégio conhecer quem está por detrás da câmara, perceber de onde nasce a inspiração e como cada um encontra o seu lugar neste universo tão vasto que é a fotografia.
Agradecemos ao João pela generosidade com que partilhou a sua história, tempo e conhecimento — e por nos deixar, por instantes, ver o céu através do seu olhar.
— Olá João! Fala-nos um pouco sobre ti e de como começou a tua relação com a fotografia. Lembras-te do momento em que tudo começou?
(João): Olá! Sou o João Monteiro natural de Tondela, nascido e criado desde 1982. Adquiri interesse pelo mundo fotográfico há pelo menos há 15 anos atrás!
Não me recordo precisamente, mas penso que foi ao passar em frente de uma loja de material fotográfico em que estava a decorrer uma exposição e confesso que já não me recordo bem de quem, se a memória não me engana na loja da Leica na cidade do Porto em Portugal.
Foi aqui em frente desta loja que a chama da fotografia acendeu e decidi começar a dar os meus toques no mundo da fotografia.
— Como começaste a interessar-te por astrofotografia? Houve algum momento marcante ou foi algo que foi surgindo naturalmente?
(João): O gosto pela Astrofotografia nasceu no momento em que percebi que era possível com o material que tinha na altura poder captar algumas partes do céu e o facto de ser um aficionado pelo Cosmos no geral e pela sua vastidão avassaladora e de todos os segredos que nela se encontram.
— Que equipamento costumas usar? Conta-nos o que costumas levar contigo quando sais para fotografar o céu — câmara, lente, tripé, montagem… e se usas software na edição final.
(João): O equipamento foi mudando ao longo dos anos e à medida que a paixão aumentava e o investimento que o meu bolso permitia para adquirir novos equipamentos.
Tudo porque existe uma panóplia de equipamentos que pode facilitar a captura dos astros, mas com um bom tripé, boas lentes e com boas aberturas de câmera e se possível com um Startracker podem-se tirar fotos espetaculares e depois muito se resume à edição, que pode levar mais horas do que propriamente a capturar as fotos.
No meu caso utilizo o Photoshop, Lightroom, Starry Landscape Stacker.
— Onde costumas fotografar? Tens locais preferidos ou andas sempre à procura de novos sítios com pouca poluição luminosa?
(João): Os meus locais preferidos são, na verdade, na localidade onde moro, pois quase sempre não me é possível deslocar para mais longe, então, geralmente vou para a Serra do Caramulo, Serra da Estrela e com exceção para Monsarraz, que eu considero um excelente sítio para fotografar um céu noturno com o mínimo de poluição luminosa.
— A que horas costumas fotografar — e em que altura do ano? Achas que há noites mais especiais? Como decides quando sair?
(João): As horas em que é mais costume ir é: mal o Sol se ponha, pois o ideal é ter uma noite sem Lua ou Lua Nova, ou seja sendo numa noite em que ela não surja, para ter um céu com menos poluição luminosa. Em qualquer altura do ano pode-se fotografar a Via Láctea, mas no meu entender a altura mais bonita é quando o centro da nossa Galáxia se encontra visível no nosso hemisfério (norte), a partir de maio até setembro são boas alturas.
Mas durante o inverno também se pode fotografar outras constelações, corpos celestes e muitos objetos que se encontram visíveis.
As noites mais especiais são aquelas em que se consegue um céu com poucas poeiras, super límpido, sem lua e sem poluição luminosa e se juntarmos por exemplo uma chuva de estrelas, PERFEITO!!!!
— Escolhe uma das tuas fotografias e conta-nos como foi feita. Desde a preparação até ao resultado final. Quanto tempo demorou, o que te levou a escolher aquele enquadramento, que dificuldades encontraste…
(João): Então … a imagem que partilho de seguida é uma delas.
De forma sucinta:
Material:
- Tripé
- Câmera – Sony Alpha7 III
- Lente – Sigma 50mm f1.2;
- Startracker.
Esta foto em particular foi tirada na barragem do Alqueva, onde se pode ver na sua composição a barragem, o centro da nossa Galáxia e um pouco da constelação Escorpião. Geralmente o meu processo é separar o céu do resto “assunto”, neste caso a barragem, isto porque, são exposições diferentes e assim obtenho o máximo resultado (existem muitos outros métodos para capturar este tipo de foto).
Em termos de captura do céu aqui não utilizei um Tracker, mas sim fotos estacionárias de 20s cada frame, cerca de 50 fotos que dá cerca de 16 minutos total de exposição, a abertura da lente foi cerca de f2.8 e com um ISO de 2000.
Quanto ao chão foi uma foto de 1 minuto de exposição a f2.8 com uma ISO de 400.
Ambas as fotos são no mesmo frame, isto é, a paisagem é a mesma, simplesmente edito o céu , e chão separadamente, no final faço um blend das duas para ter o melhor das duas .
Quanto ao céu, começo por alinhar as 50 fotos no Photoshop e depois de alinhadas aplico um processo em que vai compilar e originar uma imagem única com muito detalhes e com muito menos ruído (devido ao ISO alto) e com muita mais amplitude de informação para poder trabalhar nela, depois é proceder ao ajuste dos parâmetros normais.
De seguida edito o “chão”, uma edição normal, de seguida juntei as duas fotos, adiciono uma por cima da outra, e tento equilibrar de modo a que pareça um único frame. Volto aplicar ajustes normais de modo a harmonizar e embelezar a paisagem.
Todo o processo varia muito de foto para foto, muitos fatores entram em jogo, como a luminosidade, a temperatura, a visibilidade e até por incrível que pareça todos os objetos que por lá passam como por exemplo: aviões, que são um estraga fotos !!! 🙂
— Que conselhos dás a quem quer experimentar astrofotografia? Por onde é que se começa, sem grandes complicações? Há algo que gostavas de ter sabido no início?
(João): A Fotografia no geral é um hobby para mim fantástico, só é preciso ter imaginação e criatividade. No caso da Astrofotografia para se ter bons resultados já tem que se apostar em algum material melhor, com boas aberturas e boa nitidez. Um bom tripé também é necessário e acima de tudo … muita paciência e noites em branco .
Anotações Visuais – Astrofotografia
por João Monteiro
Foto 1
- Material: Tripé Manfroto, Sony Alpha7 III , Sigma 50mm f1.2 , Tracker
- 50x20s céu ISO 2000 Abertura: f2,8
- 1x40s Chão ISO 400 Abertura f5
- 3 fotos de 3 meteoritos Perseidas (Serra do Caramulo)
- Blend
Foto 2
- Material: Tripe Manfroto, Sony Alpha7 III , Sigma 50mm f1.2
- 20x15s céu ISO 2000 Abertura f1.2
- 1x1m chão ISO 400 Abertura f5
- Blend
Foto 3
- Material : Tripé Manfroto, Sony Alpha7 III , Sigma 14mm f1.8
- 40x15s céu panorâmicas ISO 2000
- 20x1m chão panorâmicas ISO 400
- Blend
Foto 4
- Material : Tripé Manfroto, Sony Alpha7 III, sigma 85 f1.4, tracker
- 30x1m ISO 800
Foto 5
- Material: Tripé Manfroto, Sony Alpha7 III, Sigma 85 f1.4, tracker
- 30x1m céu ISO 800 Abertura f2
- 1x1m chão ISO 200 Abertura f5
- Blend
Foto 6
- Material: Tripé Manfroto, Sony Alpha7 III , Sigma 14mm f1.8
- 40x15s céu panorâmicas f1.8 ISO 2000 Abertura f1.4
- 20x1m chão panorâmicas f5 ISO 400 Abertura f5
- Blend
Foto 7
- Material: Tripé Manfroto, Sony Alpha7 III, Canon 200 f2 , tracker
- 30x1m ISO 800
Agradecimento
Mais uma vez, um enorme obrigado ao João pela sua disponibilidade, pela partilha generosa da sua história e pela forma como nos deixa ver o mundo — e o céu — com outros olhos.
É sempre especial dar espaço a quem vive a fotografia com tanta dedicação.
Obrigado João!


