Sebastião Salgado: “o telemóvel não tem nada a ver com fotografia” — e porque é que ele chama a isto uma nova linguagem de comunicação
Há frases que irritam precisamente porque acertam num nervo. Quando Sebastião Salgado diz que aquilo que fazemos com o telemóvel “não é fotografia”, mas sim uma “linguagem de comunicação”, ele não está a dizer que não dá para fazer imagens fortes com um smartphone. O que ele está a fazer é outra coisa: está a tentar separar dois gestos que, à primeira vista, parecem iguais — captar uma imagem — mas que, na prática, vivem em tempos completamente diferentes.
Salgado tem repetido esta ideia em entrevistas e declarações públicas: as imagens de telemóvel, na maioria das vezes, servem para comunicar já, para circular, para responder, para provar presença; a fotografia, para ele, é uma coisa mais lenta, mais pesada, mais ligada à memória e à permanência. Numa peça da Reuters, citada por vários meios, ele resume isto de forma frontal: “o que as pessoas fazem com os telefones não é fotografia, são imagens”, e acrescenta que a fotografia é “tangível”, que se pega nela, que se olha, e que está “próxima da memória”.
E se isto te parece exagero, repara: Salgado não está a falar de tecnologia. Está a falar de relação com o tempo.
Comunicação vs. memória: a diferença que ele quer que tu sintas
A lógica dele é simples: a imagem de telemóvel nasceu para ser mensagem. Vai para um chat, para um story, para um feed. Cumpre o seu papel e desaparece. Muitas perde-se quando trocas de telemóvel, quando mudas de conta, quando a nuvem falha, quando o arquivo fica enterrado num sítio onde nunca mais voltas. É uma imagem que vive para o presente.
Já a fotografia — na visão de Salgado — tem vocação de memória. Ela fica, volta a ser vista, reaparece anos depois, organiza uma narrativa familiar, social, histórica. É por isso que ele insiste tanto na ideia do objecto e do arquivo: a fotografia como coisa que se guarda e que regressa, como um álbum de família que atravessa gerações. Esta oposição entre “imagem para comunicar” e “fotografia para memória” aparece de forma muito clara em textos que citam as suas palavras e em entrevistas onde ele reforça que a “linguagem de comunicação por imagem” não tem o mesmo vínculo à memória.
Se quiseres um exemplo simples: tu podes mandar hoje vinte fotografias pelo WhatsApp e amanhã já ninguém se lembra delas. Mas uma fotografia impressa em cima de uma mesa, ou num álbum, ou num livro, tem outra gravidade. Ela obriga-te a parar. E Salgado, que construiu a carreira inteira em torno de projectos longos, edições exigentes e livros como objecto final, está a defender precisamente isso: a fotografia enquanto construção de tempo.
“Tangível”: a fotografia como objecto (e como responsabilidade)
Quando ele diz “tangível”, não é nostalgia vazia. É uma afirmação cultural: a fotografia, para ele, tem corpo. E esse corpo traz responsabilidade. Uma imagem impressa é mais difícil de descartar do que uma imagem partilhada num scroll infinito. Uma impressão ou um livro exigem escolha, edição, sequência, intenção — e isso muda a relação que tu tens com o acto de fotografar.
Esta visão aparece na mesma linha em que Salgado desvaloriza o telemóvel enquanto “fotografia” e reforça a fotografia como memória social. E encaixa perfeitamente no modo como ele sempre descreveu o seu próprio processo: fotografia como projecto, como conceito, como trabalho longo, onde o tempo de campo é apenas uma pequena parte e o resto é preparação e construção.
Há aqui uma provocação útil para ti: não é sobre impressão vs. digital. É sobre intenção. A pergunta que Salgado te coloca, mesmo sem querer, é esta: estás a fotografar para dizer “olha onde estou” ou estás a fotografar para deixar uma memória que sobreviva ao teu próprio presente?
“Não tem valor estético”? O que ele quer dizer (e onde isto é discutível)
Outra parte polémica do discurso dele é a ideia de que grande parte destas imagens instantâneas “carece de valor estético” e é um registo volátil do quotidiano. Esta afirmação aparece com frequência associada às suas declarações em entrevistas e comentários públicos.
Aqui vale a pena seres honesto contigo: como afirmação geral, isto é discutível, porque existe fotografia artística e documental feita com smartphone, com intenção e edição, que tem força real. Mas a crítica de Salgado não está tanto no sensor. Está no hábito dominante: o gesto automático, a produção massiva, a ausência de selecção, a ausência de permanência. E, nesse sentido, a frase funciona menos como “verdade técnica” e mais como alerta cultural: quando tudo é imagem, quase nada fica.
Aliás, o próprio Salgado já oscilou publicamente entre pessimismo e esperança. Em 2016, foi noticiado que ele chegou a prever a “extinção” da fotografia, substituída por “imagem” e por uma linguagem que não se interessa por memória, arte ou qualidade. Mais tarde, ele recuou: disse que estava errado e que a fotografia documental tem futuro, precisamente por se distinguir desse mar de imagens descartáveis.
Esta mudança é importante, porque revela o centro da ideia dele: a fotografia sobrevive quando tem peso.
O que isto muda no teu dia-a-dia, mesmo que tu uses telemóvel
A frase “não é fotografia” pode soar elitista, mas tu podes transformá-la numa ferramenta prática. Em vez de discutires sem fim o aparelho, usa a provocação para fazeres um diagnóstico ao teu próprio arquivo:
- Quantas imagens tu tens que são apenas “recados visuais”
- Quantas voltas a ver passado um mês?
- Quantas mereciam ser editadas, impressas, guardadas num lugar com sentido?
- Quantas contam, de facto, uma história que tu queres manter?
Se tu fizeres isto com honestidade, vais perceber que Salgado está a apontar para um problema real: hoje tiramos mais imagens do que conseguimos integrar na nossa vida. Estimativas recentes falam em números diários na ordem dos milhares de milhões de fotografias (valores variam conforme a metodologia), o que ajuda a perceber porque é que tanta coisa se torna descartável.
A consequência não é “não uses telemóvel”. A consequência é: escolhe quando estás a comunicar e quando estás a construir memória. E isso pode acontecer com qualquer câmara — desde que tu mudes o gesto.
Exercício prático: transformar “imagens” em fotografia (em 30 minutos)
Faz isto uma vez por semana durante um mês. É simples e muda mesmo a tua relação com o arquivo.
Durante um dia normal, usa o telemóvel como sempre: fotografias rápidas, mensagens, registos, coisas práticas. No fim do dia, escolhe apenas três imagens. Só três. E agora faz três passos:
- Primeiro, abre cada uma e pergunta: isto comunica ou isto fica? Se for só comunicação, não há problema — mas então assume isso e deixa-a ir.
- Segundo, pega numa das três e faz uma edição mínima com intenção: endireitar, cortar com rigor, ajustar luz para reforçar a ideia. O objectivo não é “ficar bonito”. É ficar claro.
- Terceiro, e aqui está o ponto Salgado: imprime essa imagem (mesmo pequena, mesmo num laboratório barato) ou coloca-a num “álbum” real — um ficheiro organizado com data e legenda curta, como se fosse uma página de memória. Uma frase chega: onde foi, porquê, o que estavas a sentir.
Ao fim de quatro semanas, vais ter doze fotografias que tu consegues revisitar. E vais perceber a diferença: não é a lente. É a intenção e a permanência.
Então um telemóvel não faz fotografia?
Faz imagens — e pode fazer imagens incríveis. O ponto do Salgado não é a tecnologia, é o gesto: a maior parte das fotos de telemóvel nasce para ser vista já, partilhada já e esquecida já. Quando a imagem vive só para o presente, ele chama-lhe comunicação, não memória.
Se é assim, fotografia “a sério” tem de ser impressa?
Não tem de ser, mas tem de ser assumida como arquivo. Se tu editas, escolhes, organizas e voltas a ver, já estás a tratar aquilo como fotografia no sentido mais forte. A impressão ajuda porque dá corpo e obriga a abrandar — mas o essencial é a intenção e a permanência.
Qual é, na prática, a diferença entre comunicação e memória?
Comunicação é a imagem que resolve o momento: “olha onde estou”, “olha o que aconteceu”, “olha isto agora”. Memória é a fotografia que tu queres que sobreviva ao teu dia — aquela a que voltas, que guarda contexto, que fica ligada a uma história.
As fotos de telemóvel não têm valor estético?
Algumas têm, claro. O que ele critica é o mar de imagens descartáveis: quando há demasiado, quase nada ganha tempo para existir. A estética precisa de escolha, edição, sequência. Sem isso, muitas imagens ficam só como ruído visual.
Isto é uma crítica ao Instagram e às redes?
É mais uma crítica ao ritmo. As redes empurram-te para produzir e largar. E tu podes usar isso a teu favor, ou podes ficar preso nesse ciclo. A provocação do Salgado é útil porque te pergunta: tu estás a criar imagens… ou estás a construir memória?
A fotografia documental vai desaparecer?
Ele chegou a temer isso, mas acabou por defender o contrário: a fotografia documental continua a existir precisamente porque se distingue do descartável. Ou seja: quanto mais “imagem” houver, mais a fotografia com peso e intenção se destaca.
Então o que é que eu posso fazer com as minhas notei… milhares de fotos?
Faz uma coisa simples: escolhe pouco e dá-lhe destino. Em vez de acumular, cria um ritual mínimo: seleccionar 10 por mês, editar com calma, legendar, guardar num álbum (digital bem organizado ou impresso). A memória não nasce do volume — nasce da escolha.
Conclusão
No fim, a provocação do Sebastião Salgado não é uma guerra entre câmaras e telemóveis — é uma chamada de atenção ao tempo. A maior parte das imagens que fazemos hoje nasce para circular depressa, para dizer “estou aqui”, para responder, para provar, para preencher o feed. E isso não é um problema. O problema é quando esse gesto ocupa tudo e a fotografia deixa de ter espaço para aquilo que sempre foi: memória, arquivo, um objecto que regressa a nós anos depois e nos devolve uma história.
Se tu aceitares esta distinção, a conclusão é simples e libertadora: não tens de deixar de usar o telemóvel. Tens é de escolher, com intenção, quando estás a comunicar e quando estás a construir fotografia. E construir fotografia significa abrandar: editar, seleccionar, dar destino, guardar com sentido — nem que seja só uma imagem por semana, com uma legenda e um lugar próprio. Porque é aí que a fotografia volta a ser aquilo que Salgado defende: não um reflexo instantâneo do presente, mas um pedaço de tempo preservado.





