Na década de 1950, em plena era dourada da fotografia de rua, a maioria dos fotógrafos trabalhava com lentes de 35 mm ou 50 mm. Eram lentes que obrigavam à proximidade, à interação direta, ao instante decisivo.
Mas Saul Leiter escolheu outro caminho. Enquanto os outros se aproximavam das pessoas, ele afastava-se — não por timidez, mas por intenção artística. Usava lentes longas: 85 mm, 135 mm e 150 mm, explorando o seu efeito de compressão de perspetiva para transformar o mundo tridimensional num quadro bidimensional — quase numa pintura.
A lente longa como linguagem
Em entrevista, Leiter confessou:
“Tive, a certa altura, uma lente de 150 mm de que gostava muito. Gostava do que ela fazia. Experimentei bastante com ela.”
O que ela “fazia” era mágico. Uma lente longa reduz a sensação de profundidade, fazendo com que objetos distantes pareçam mais próximos entre si.
É o fenómeno que chamamos compressão de perspetiva — e que, nas mãos de Leiter, se tornou poesia visual. Em vez de registar o espaço entre as coisas, ele achava-o irrelevante.
O que lhe interessava era a forma como as cores se tocavam, como a luz atravessava o vidro, como os planos se fundiam até que a cidade deixasse de ser cenário e se tornasse pintura.
O olhar do pintor
Antes de ser fotógrafo, Saul Leiter era pintor. E manteve essa sensibilidade em tudo o que fez.
A lente longa permitiu-lhe criar imagens planas, densas e silenciosas, onde o olhar não é conduzido pela perspetiva, mas pela cor e pela forma. Aquilo que em outros fotógrafos seria distração — reflexos, nevoeiro, vidros embaciados, chuva — em Leiter torna-se elemento compositivo. A compressão de planos dá-lhe liberdade para organizar o caos urbano como quem mistura pigmentos numa tela.
“Através dessa compressão, conseguia simplificar as suas imagens e criar formas geométricas mais distintas.”
— Eric Kim Photography
A influência japonesa
As suas imagens têm ecos das xilogravuras japonesas (ukiyo-e) — obras planas, onde os elementos coexistem sem profundidade nem hierarquia. Leiter, fascinado pela cor e pela abstração, encontrou nas lentes longas uma forma de recriar essa mesma estética de superfície.
As figuras humanas perdem volume, as janelas tornam-se manchas, as sombras dissolvem-se.
Tudo existe no mesmo plano — um mundo onde o olhar já não atravessa, mas vagueia.
Cor, distância e emoção
As lentes longas também lhe ofereceram distância emocional. Enquanto a 35 mm implica contacto, o telefoto permite observar em silêncio. Essa distância, em vez de o afastar da emoção, aproximou-o da contemplação.
Nos seus enquadramentos apertados, o espaço é apenas sugestão; o tempo, suspensão.
É fotografia que respira como pintura, feita de pausas, camadas e silêncio.
“Essa distância permitia-me relaxar e compor de forma mais livre.”
— Discussão sobre Leiter, Flickr Street Photography Forum
O que a compressão transforma
A compressão de perspetiva faz quatro coisas essenciais nas imagens de Saul Leiter:
- Achatamento do espaço — O tridimensional torna-se bidimensional. O olho já não lê distância, lê cor.
- Fusão de planos — Reflexos, vidro e movimento fundem-se num só campo visual.
- Geometrização da cor — As “manchas” (blobs of color) tornam-se blocos estruturais, equilibrando a composição.
- Distância narrativa — O observador sente-se espectador, não intruso. A imagem ganha um tom de introspeção e melancolia.
O resultado é uma estética onde a cidade é reduzida a fragmentos visuais — um teatro de luz e cor visto através do olhar de um pintor silencioso.
Harlem, 1960
Análise de alguns aspectos desta fotografia que gostaria de destacar:
- A compressão de perspetiva entra em jogo: fundo e figuras modernas/urbanas “aproximam-se” visualmente, contribuindo para o carácter introspectivo e contemplativo da imagem.
- A figura humana está relativamente pequena no quadro, e a cena é construída mais pela cor, pela luz e pelo ambiente do que por retrato tradicional. Isso sugere uma lente ou abordagem que favoreça o afastamento.
Snow, 1970
Esta imagem capta a cidade sob neve, com vidros embaciados ou janelas a filtrar a luz — a distância e a compressão ajudam a dissolver o sujeito em cor e atmosfera.
- A lente longa ou o elemento de afastamento adapta-se bem à cena: ao invés de focar num único motivo, cria-se um “mundo de dentro para fora”, onde a distância e os reflexos transformam a realidade.
- Leiter dizia “a window covered with raindrops interests me more than a photograph of a famous person”.A distância (física e visual) torna-se ferramenta para transformar o quotidiano em contemplação.
Through Boards, 1957
Aqui vemos placas ou tábuas (“boards”) que ocupam grande parte do enquadramento, com uma cena de rua pequena ou parcialmente visível atrás — isso cria camadas visuais, e a lente longa ajuda a “achatá-las”, ou seja, a reduzir a sensação de profundidade entre os planos.
- A lente longa ou o uso de distância permite que essas camadas – tábuas, vidro, fundo urbano – coexistam com clareza, sem que o primeiro plano domine de forma esmagadora.
- Essa imagem evidencia bem a estética de “manchas de cor” e “planos sobrepostos” que falámos: o efeito de lente longa reforça isso.
Ver Saul Leiter em movimento
Um vídeo essencial para compreender como a compressão, a cor e a distância criaram uma das linguagens visuais mais poéticas da história da fotografia.
Fotografar “à maneira de Leiter”
Se quiseres experimentar esta abordagem, faz o seguinte:
- Escolhe uma lente de 85 mm, 135 mm ou 150 mm.
- Afasta-te fisicamente do motivo, mas aproxima-te visualmente.
- Fotografa através de vidro, reflexos, chuva, fumo ou nevoeiro.
- Trabalha a cor como estrutura, não como detalhe.
- Observa como a compressão transforma a realidade em abstração.
E lembra-te:
às vezes, é a distância que nos permite ver com mais profundidade.
Se quiseres pôr em prática a forma de ver de Saul Leiter, recomendo vivamente o vídeo abaixo.
É uma excelente análise sobre como adaptar a sua abordagem aos dias de hoje —
usar lentes longas, explorar a compressão de perspetiva, trabalhar com camadas, reflexos e cor, e sobretudo fotografar com distância e sensibilidade.
Um ótimo ponto de partida para experimentar o “olhar à maneira de Leiter” nas ruas da tua própria cidade.
Conclusão — Ver de longe para sentir mais perto
As lentes longas de Saul Leiter não eram apenas uma escolha técnica — eram uma escolha poética.
Ao comprimir o espaço, ele aproximava o mundo da pintura, dissolvia o tempo e transformava o caos da rua num mosaico de cor, forma e silêncio.
A sua distância não era frieza, era contemplação.
O telefoto dava-lhe espaço para observar, respirar e encontrar beleza nas pequenas coisas — um reflexo, um vidro embaciado, um guarda-chuva vermelho a atravessar a chuva.
E talvez seja essa a maior lição que nos deixa: a distância também pode ser intimidade.
Porque ver de longe, às vezes, é o que nos permite sentir com mais profundidade.
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