O que aprendi com Joel Meyerowitz: ver com calma, fotografar com intenção
De publicitário a fotógrafo de rua
O Meyerowitz começou por trabalhar em publicidade, mas tudo mudou quando esteve numa sessão fotográfica com o lendário Robert Frank, em 1962. Aquilo mexeu tanto com ele que largou o emprego e atirou-se de cabeça à fotografia. Coragem, não é?
Entrou então no movimento da fotografia de rua dos anos 60 nos Estados Unidos, lado a lado com nomes como Garry Winogrand e Lee Friedlander. E aqui fez algo diferente: enquanto quase toda a gente fotografava a preto e branco, ele decidiu apostar na cor — usando os famosos rolos Kodachrome para captar a vida caótica de Nova Iorque com mais detalhe e emoção.
A cor como linguagem emocional
Meyerowitz não usava cor só porque sim. Para ele, a cor tem mesmo um papel emocional. Disse uma vez:
“A cor consegue expressar, por si só, uma vasta gama de sentimentos: mais comprimentos de onda, mais brilho, mais sensação.”
E sente-se isso no trabalho dele. Em projectos como Cape Light, ele não está só a fotografar paisagens — está a fotografar luz. É quase como se nos dissesse: “olha para o que a luz faz”. E se começarmos a ver a luz como ele a vê, a nossa fotografia muda.
A fotografia digital mudou o olhar das pessoas
Algo que ele contou e que me ficou na cabeça: já na era digital, numa exposição com fotografias antigas (película de 35 mm), ouviu várias pessoas a dizer que aquelas imagens “só podiam ter sido encenadas”. As cenas eram tão improváveis e bem apanhadas que o público já não acreditava que fossem reais.
Ou seja, com a quantidade de manipulação que hoje se faz com imagens, perdemos um bocado da noção do que é espontâneo. Isso diz muito sobre os tempos que vivemos. E é aqui que entra uma das lições dele que mais me marcou:
“Quando os artistas tentam agradar às massas, o seu trabalho perde intensidade.”
Quantas vezes não nos preocupamos com o que os outros vão pensar da nossa fotografia? Se vai ter likes, se vai encaixar no “estilo” que se espera de nós? Meyerowitz lembra-nos que o mais importante é sermos fiéis ao nosso olhar. A autenticidade vale muito mais do que a aprovação.
A importância do instinto
Com o passar dos anos, ele foi dando ainda mais valor à intuição. Há momentos em que não temos de pensar demais — temos só de sentir. Fotografar com o instinto, com o que nos chama. Ele descreve isso como uma ligação directa ao que está dentro de nós, antes mesmo de vermos a imagem no visor. E eu identifico-me muito com isso.
Aliás, ele até vê com bons olhos o digital: hoje, toda a gente tem uma câmara no bolso. Ele acredita que isso vai inspirar novas formas de ver, novos olhares. Mas claro, só se tivermos curiosidade e atenção.
Quatro fotografias que vale a pena conhecer
Deixo-vos aqui quatro imagens que representam bem o estilo e a evolução de Joel Meyerowitz:
1. Mannequins, Nova Iorque, 1963
Uma montra com manequins que parecem quase humanos. Composição simples, mas cheia de camadas visuais e significado.
2. West 46th Street, 1976
Uma cena urbana em que a luz transforma tudo. Uma imagem que nos mostra como um momento banal pode tornar-se inesquecível com o enquadramento certo.
3. Cape Cod, 1979
Parte da série Cape Light. Paisagem, silêncio e cor. Parece uma pintura.
4. Ground Zero, 2001
Depois dos atentados de 11 de Setembro, Meyerowitz foi o único fotógrafo com acesso total ao local. O resultado foi um arquivo visual comovente e histórico.
O que podemos aprender com ele?
Para mim, Meyerowitz é uma inspiração porque nos mostra que a fotografia não é só técnica — é um estado de atenção, de presença, de abertura ao que nos rodeia. Ensinou-me que a luz pode ser o verdadeiro tema de uma fotografia e que o nosso olhar só é especial quando não é domesticado por aquilo que os outros esperam ver.
Se estás a começar ou já fotografas há algum tempo, recomendo mesmo que explores o trabalho dele. Vais perceber que a fotografia pode ser simples e profunda ao mesmo tempo. E que, às vezes, tudo o que precisamos é parar… e ver.
Queres conhecer melhor o processo criativo de Meyerowitz? Lê também o artigo “Joel Meyerowitz — How I Make Photographs” — onde falo sobre o livro em que o fotógrafo revela a sua forma de ver, pensar e construir imagens.
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