Abbas: escrever com a luz, pensar com a fotografia
Quando se fala de Abbas, é fácil ficar logo preso à dimensão histórica do seu trabalho: guerras, revoluções, conflitos, tensão política, territórios em rutura. Mas reduzir Abbas a esse lado seria curto. O que torna a sua obra verdadeiramente marcante é a forma como ele entendia a fotografia como linguagem, como pensamento e como construção de sentido.
Quando dizia que o fotógrafo é “aquele que escreve com a luz”, Abbas não estava apenas a descrever uma técnica — estava a definir uma posição. Fotografar, para ele, não era simplesmente apontar a câmara e recolher factos. Era interpretar o mundo. Era dar forma visual ao que via, com consciência, com distância, com intenção. A própria Magnum recuperou essa ideia no título do seu obituário, sublinhando-o como “the photographer who writes with light”.
Essa ideia ajuda a perceber porque é que o seu trabalho vai muito para além do registo jornalístico. Sim, Abbas esteve nos grandes acontecimentos do seu tempo e fotografou momentos decisivos da história recente, mas o seu olhar nunca ficou preso ao imediato.
Havia sempre uma camada mais profunda: a relação entre poder, crença, medo, identidade e humanidade. E isso torna-se ainda mais evidente no trabalho que desenvolveu sobre as religiões, onde não procurava apenas mostrar rituais ou símbolos, mas observar como a fé molda pessoas, comunidades e sociedades inteiras.
A Magnum destaca precisamente esse eixo central da sua obra — guerras, revoluções e uma atenção continuada à religião e à sua ligação à sociedade — e várias retrospectivas e obituários retomam essa leitura do seu percurso.
Abbas referia que foi influenciado por Rembrandt, Picasso, Cézanne, Caravaggio e Velasquez, isso diz-nos também muito sobre o seu olhar. Abbas via a fotografia para lá da própria fotografia. Ia buscar à pintura a luz, a sombra, a construção da cena, a tensão dentro do enquadramento.
Isto é muito revelador, porque mostra um fotógrafo que não queria apenas “estar lá” — queria ver melhor. Queria organizar visualmente o caos. Queria transformar um instante num espaço de leitura. E é por isso que tantas imagens dele têm essa força rara: são documentos, mas são também imagens pensadas, compostas, carregadas de densidade visual e humana.
Em textos e testemunhos sobre o seu trabalho, esta ideia aparece de forma muito clara: Abbas é frequentemente descrito como alguém que trazia ordem ao caos, mesmo no centro da confusão, e que trabalhava com um rigor formal pouco comum no fotojornalismo de terreno.
No fundo, Abbas lembra-nos uma coisa essencial: a fotografia pode informar, mas também pode pensar. Pode testemunhar, mas também pode interrogar. E talvez seja essa a sua maior herança — mostrar que um fotógrafo não é só alguém que regista o mundo, mas alguém que o escreve com luz, sem nunca perder de vista a complexidade humana que existe dentro de cada fotografia.
E é exatamente essa combinação entre testemunho e visão que faz com que o trabalho de Abbas continue tão atual: não fala apenas de acontecimentos do passado, fala da forma como a fotografia nos ajuda a compreender o ser humano.
Abbas não pensava em imagens isoladas, pensava em ensaios
Uma das ideias mais fortes de Abbas — e uma das mais úteis para quem fotografa hoje — é que uma fotografia não vive apenas sozinha. No obituário da Magnum, aparece uma distinção muito importante no pensamento dele: para Abbas, havia uma fotografia que “desenha com a luz” e outra que “escreve com a luz”. E é aqui que ele se afasta da lógica da imagem única como fim em si mesmo.
Abbas dizia que as suas fotografias eram parte de algo maior: uma série, um ensaio, uma sequência. Cada imagem devia ter força por si, mas o verdadeiro valor surgia quando era lida dentro de um conjunto.
Isto ajuda a explicar porque é que o trabalho dele mantém tanta densidade. Abbas não fotografava apenas para “apanhar” um momento forte. Fotografava para construir pensamento visual. A imagem individual importava, claro, mas o sentido final aparecia na relação entre imagens, no ritmo, na repetição de temas, na forma como uma fotografia responde à anterior e prepara a seguinte. Esta forma de trabalhar é visível tanto nos grandes conflitos como nos projectos sobre religião. O que ele faz não é só mostrar; é encadear, contextualizar, interrogar.
Para quem faz fotografia hoje — mesmo fora do fotojornalismo — esta é uma lição enorme: em vez de pensares apenas na foto “boa”, podes começar a pensar no que estás realmente a construir. Uma sequência. Um corpo de trabalho. Uma ideia com continuidade.
“Trazer ordem ao caos”: a forma como Abbas via o mundo
Há uma expressão atribuída a Abbas que ajuda muito a ler as suas imagens: “Mesmo quando fotografo caos, tento trazer ordem a isso.” Essa frase é particularmente importante porque diz muito sobre o seu método. Abbas trabalhou em cenários extremos — guerra, revolução, violência, tensão social — mas as suas fotografias raramente parecem visuais descontrolados. Há sempre uma estrutura. Há direcção no olhar. Há composição. Há uma atenção ao espaço e às relações dentro do enquadramento.
Isto não significa “embelezar” o sofrimento. Significa não abdicar da linguagem visual quando se fotografa o real. É precisamente aqui que Abbas se torna tão importante: ele mostra que rigor documental e rigor formal não são inimigos. Pelo contrário. Muitas vezes, é o rigor formal que dá legibilidade ao caos, que permite ao leitor entrar na imagem, perceber tensões, sentir a gravidade do momento.
E esta ideia continua a ser muito atual. Numa altura em que há um volume imenso de imagens rápidas, instantâneas e descartáveis, Abbas lembra-nos que fotografar também é escolher, organizar, limpar ruído visual, construir clareza. Não para “decorar” a realidade, mas para a tornar mais legível.
A religião como território de observação (e não de propaganda)
Se muita gente associa Abbas às guerras e revoluções, há outro eixo da sua obra que é absolutamente central: a religião. E aqui convém dizer uma coisa com clareza: Abbas não fotografava a religião como catequese, nem como exotismo. Fotografava-a como força histórica, social e política. Como energia que move pessoas, mas também como campo de poder, identidade e conflito.
Ao longo de décadas, desenvolveu ensaios longos sobre islamismo, cristianismo, animismo, budismo, hinduísmo e judaísmo, sempre com esse olhar rigoroso e interrogativo. A Magnum sublinha esse interesse de longa duração pela religião e pela sua intersecção com a sociedade, e várias referências ao seu trabalho retomam esse mesmo ponto como uma das marcas mais fortes da sua carreira.
No caso de In Whose Name?, por exemplo, o projecto nasce depois do 11 de Setembro e da pergunta que Abbas faz a si próprio: se uma forma de intolerância religiosa pode gerar outra. A forma como ele trabalha esse tema não é panfletária. É observacional, crítica e humana. Ele não está a fotografar “a religião” de forma abstracta; está a fotografar aquilo que as pessoas fazem em nome dela. E esta nuance é essencial, porque impede leituras simplistas e mantém o trabalho aberto à complexidade.
O “momento suspenso”: pensar antes, fotografar durante, meditar depois
Outra ideia muito forte no pensamento de Abbas é a do “momento suspenso”. Em textos sobre a sua obra e em declarações recuperadas em ensaios e retrospectivas, Abbas descreve a fotografia como um processo que não começa no clique nem acaba nele. Há reflexão antes, decisão durante e meditação depois. E é precisamente nesse fluxo que nasce a “escrita” fotográfica. Não é uma fotografia impulsiva no sentido superficial; é uma fotografia que parece espontânea porque foi profundamente pensada.
Isto também ajuda a perceber porque é que ele valorizava tanto a sequência. Para Abbas, fotografar não era apenas reagir a um acontecimento. Era transformar esse acontecimento em linguagem visual. O que vemos numa imagem é um instante; o que ele procura é um raciocínio visual em andamento.
Para quem está a construir o seu próprio olhar, esta é talvez uma das maiores lições de Abbas: espontaneidade não é desleixo. Pode ser resultado de atenção, prática, cultura visual e clareza de intenção.
Abbas e a herança da pintura: ver mais fundo, não apenas ver mais depressa
Há um traço consistente na forma como várias pessoas descrevem Abbas: ele tinha uma relação profunda com outras artes, especialmente a pintura. Isso sente-se na maneira como trabalha luz e sombra, na forma como organiza grupos, na tensão dentro das cenas, na capacidade de deixar uma imagem “aberta” — como se a vida estivesse a continuar um segundo antes e um segundo depois do clique. Em textos sobre a sua obra, surgem referências directas ao seu interesse por Rembrandt e Cézanne, e essa ligação ajuda muito a ler a densidade visual das suas fotografias.
Isto é importante porque desmonta uma ideia pobre sobre fotojornalismo: a de que basta estar presente. Abbas mostra o contrário. Estar presente é só o início. Depois, é preciso saber ver. Saber cortar. Saber esperar. Saber construir um enquadramento que aguente o peso humano e histórico do que está à tua frente.
É aqui que Abbas se distingue de tantos fotógrafos “correctos” mas esquecíveis: ele não se limita a mostrar o acontecimento. Ele transforma o acontecimento em imagem com espessura.
Porque é que Abbas continua tão importante hoje
Há fotógrafos que ficam presos ao seu tempo. Abbas não. E não é só porque fotografou acontecimentos históricos. É porque o seu trabalho continua a tocar em questões que estão longe de estar resolvidas: conflito, ideologia, fé, poder, identidade, violência, pertença, humanidade.
Mas há outra razão, talvez ainda mais útil para quem fotografa hoje: Abbas obriga-nos a voltar a pensar no que estamos a fazer quando fotografamos. Estamos só a registar? Estamos a coleccionar imagens? Ou estamos a construir linguagem? A olhar com intenção? A fazer escolhas formais que dão sentido ao que vemos?
Num tempo em que se fotografa muito e se pensa pouco sobre fotografia, Abbas é um lembrete exigente e necessário. A fotografia pode ser rápida, mas o olhar não precisa de ser apressado. A imagem pode nascer num instante, mas o sentido dela pode (e deve) ser construído com tempo, cultura visual e consciência.
Ver também: Abbas by Abbas (documentário)
Se quiseres aprofundar ainda mais este universo e ouvir o próprio Abbas a falar do seu trabalho, há um documentário que merece mesmo a tua atenção: Abbas by Abbas, realizado por Kamy Pakdel.
É um retrato muito especial, quase autobiográfico, em que Abbas revisita o seu percurso através de temas que atravessam toda a sua obra — violência, fanatismo, humilhação, dor, caos, espiritualidade, beleza, tristeza e intimidade. E há um detalhe que torna este filme ainda mais marcante: Abbas morreu pouco depois de terminarem as filmagens, o que faz deste documentário uma espécie de testemunho final, muito íntimo e muito lúcido sobre a forma como via a fotografia e o mundo.
O mais interessante, para quem chegou até aqui neste artigo, é que o filme reforça várias ideias centrais do seu pensamento. Abbas fala da fotografia como linguagem, da necessidade de dar forma ao caos, e daquilo a que chamava o “momento suspenso”: não congelar simplesmente uma situação, mas suspendê-la, de forma a sentirmos que a vida continua antes e depois da imagem. É uma ideia muito bonita — e muito exigente — porque mostra que, para ele, fotografar nunca foi apenas “captar” um instante. Era construir uma imagem com tempo, densidade e sentido.
Outro aspecto muito forte no documentário é a forma como Abbas fala do seu filtro emocional. Ele explica que, ao fotografar situações duras, precisava de criar uma certa distância interior para conseguir ver com clareza e fotografar com rigor. Não é frieza. É uma forma de continuar presente sem perder a capacidade de olhar. E isso ajuda a perceber melhor porque é que as suas fotografias conseguem ser tão intensas e, ao mesmo tempo, tão compostas.
Se estás a ler este artigo porque queres perceber melhor o olhar de Abbas — e não apenas conhecer algumas imagens famosas — este documentário é uma excelente continuação. Ajuda-te a entrar no pensamento dele, na forma como organizava visualmente o mundo e na exigência com que entendia a fotografia.
Se puderes, vale mesmo a pena ver. É uma daquelas obras que te faz voltar às fotografias com outro olhar.
Explora mais: perfil oficial de Abbas na Magnum Photos
Se quiseres continuar a descobrir o trabalho de Abbas, vale muito a pena visitares o perfil oficial dele na Magnum Photos. É uma excelente página para aprofundar o percurso, ver obras seleccionadas e perceber melhor a dimensão dos projectos de longo prazo que desenvolveu ao longo da carreira — do Irão ao México, do Islão ao Cristianismo, do Budismo ao Hinduísmo. A própria Magnum resume muito bem essa trajectória e mostra como Abbas foi construindo uma obra coerente, sempre entre conflito, sociedade, religião e pensamento visual.
No perfil da Magnum encontras também uma citação muito forte do próprio Abbas sobre a sua fotografia: a ideia de que a imagem nasce da acção e conduz à meditação, com a espontaneidade a surgir no “momento suspenso” dentro do visor. É uma boa porta de entrada para ler (ou reler) o seu trabalho com mais profundidade.
Conclusão
Abbas deixou-nos muito mais do que um arquivo de guerras, revoluções e religiões. Deixou-nos uma forma de pensar a fotografia. Uma forma exigente, rigorosa e profundamente humana. Ao dizer que o fotógrafo “escreve com a luz”, Abbas estava a defender uma ideia de fotografia que continua a fazer falta: uma fotografia que não se limita a mostrar o mundo, mas que o interpreta; que não se contenta com o impacto imediato, mas procura significado; que não foge à complexidade, mas tenta organizá-la dentro de um enquadramento.
É por isso que olhar para Abbas hoje não é apenas um exercício de memória. É um exercício de aprendizagem. Sobre fotografia, sim — mas também sobre atenção, cultura visual e responsabilidade perante aquilo que escolhemos mostrar.


