Nesta fotografia, decidi focar-me apenas nas pernas de um casal junto a uma poça de água, deixando deliberadamente os troncos — e os rostos — fora da parte “real” da imagem. O que poderia parecer um corte estranho ou incompleto torna-se, na verdade, o ponto de partida para outra leitura: a parte mais importante da cena está no reflexo.
Dados Técnicos e Decisões
- Velocidade do obturador: 1/50
- Abertura: f/10
- Distância focal: 28 mm
- ISO: 100
- Lente: 28-70 mm f/3.5-5.6 (lente de kit)
Optei por uma abertura pequena (f/10) para garantir profundidade de campo e manter o reflexo nítido — tanto o chão como os elementos ao fundo. Contudo, a velocidade de obturação ficou algo baixa (1/50), o que pode ser arriscado em fotografia de mão livre, especialmente se houver movimento.
Com ISO 100, priorizei a qualidade da imagem e o mínimo de ruído — mas reconheço que aqui podia ter subido para ISO 200. Isso permitir-me-ia usar uma velocidade mais rápida (por exemplo, 1/100) e reduzir o risco de qualquer ligeiro desfoque por trepidação ou movimento subtil. É um pequeno detalhe técnico, mas são estas decisões que, aos poucos, vão moldando a forma como fotografo e penso a imagem.
Ver ao Contrário
Entre o Visível e o Sugerido
Ao eliminar o óbvio (os rostos em plano direto), quis provocar o olhar do espectador. A imagem não entrega tudo de imediato. É preciso descer o olhar, quase como se estivéssemos a procurar algo no fundo da água. E é aí que encontro o que me interessa: a ligação entre as duas pessoas, subtil mas presente.
O Reflexo Como Linguagem
Nota Pessoal
Há algo de mágico quando o reflexo revela mais do que o visível. Quando fotografo assim, não estou apenas a compor uma imagem — estou a criar uma pequena armadilha visual, um convite silencioso à contemplação. E talvez, tal como eu, quem vê esta fotografia acabe por perceber que às vezes é no que não mostramos diretamente que vive a essência do momento.
Desafia-te a Ver Para Lá do Óbvio
Se nunca tentaste fotografar reflexos, este é o momento. Não precisas de grandes meios — apenas de olhar com mais intenção. Uma janela, uma poça de água, um vidro de carro, um espelho esquecido — qualquer superfície refletora pode ser o início de uma imagem com camadas, sentidos e emoção.
Treinar este olhar é mais do que um exercício técnico: é uma forma de despertar a atenção, de ver o mundo de maneira diferente. Quando fotografamos através de reflexos, aprendemos a procurar o que normalmente ignoramos. E é aí que a fotografia ganha força — quando deixamos de registar o óbvio e começamos a revelar o invisível.
Pega na câmara. Sai para a rua. Espera que chova. Observa a luz nas montras. E acima de tudo, arrisca. Nem todas as imagens vão resultar — mas todas te vão ensinar a ver melhor.
Porque tu também podes transformar o comum em extraordinário. Basta começar.
Queres aprender a contar histórias com a tua câmara?
Junta-te à formação de fotografia em Faro (Algarve) — workshops com experiências práticas, intensivas e inspiradoras, criadas para te ajudar a ver o mundo com novos olhos e dominar a arte de fotografar com intenção.


