Fotografia de natureza por: Pedro Henriques
Introdução: a imagem como ponto de partida
Depois de ver a imagem final da Bica da Água d’Alta, no Caramulo, sentei-me com o fotógrafo Pedro Henriques para conversarmos sobre tudo o que está por trás daquela fotografia serena, rica em textura e atmosfera.
Falámos da luz, da composição e das decisões técnicas que transformaram um cenário natural num registo visual intencional e emotivo. Este não é um “making of”, mas uma conversa sobre escolhas conscientes, sobre ver, esperar e sentir antes de fotografar.
A primeira impressão: suavidade e detalhe
“Usei uma exposição de 4 segundos porque queria captar essa fluidez sem perder totalmente o detalhe da água”, explicou o Pedro.
“Mais do que congelar o momento, queria deixar o tempo escorrer dentro da fotografia.”
A ficha técnica (com intenção)
Antes de continuarmos, aqui ficam os dados técnicos da imagem:
- Câmara: Canon EOS R5
- Distância Focal: 24 mm
- Abertura: f/8
- ISO: 50
- Exposição: 4 segundos
- Tripé: Manfrotto 055 com cabeça panorâmica
- Filtros: LEE Polarizador + ND 3 Stops + ND Soft 3 Stops
- Técnica: Panorâmica vertical de 5 fotografias
- Local: Bica da Água d’Alta, Caramulo
Já conheces as expedições fotográficas ao Caramulo?
Composição pensada em camadas
Perguntei-lhe como foi o processo de composição, e a resposta foi clara: tudo pensado com tempo.
“Optei por fazer uma panorâmica vertical de 5 imagens porque queria captar a cena na totalidade — desde as folhas molhadas aos pés até ao topo da cascata. Uma ultra grande angular distorceria demasiado; com 24 mm mantive o enquadramento natural e a profundidade real.”
As camadas da imagem: construir profundidade visual
Uma das razões pelas quais esta fotografia resulta tão bem é a forma como está construída em camadas. Há uma organização intencional dos planos — do mais próximo ao mais distante — que cria profundidade, ritmo e direção visual.
Durante a nossa conversa, o Pedro explicou como pensou essa estrutura ainda antes de disparar a primeira fotografia.
Primeiro plano – Textura e ancoragem
“É o ponto de entrada”, disse-me o Pedro. “Queria que o olhar do espectador pousasse primeiro aqui, onde há detalhe e textura, antes de seguir em frente.”
Plano intermédio – Direção e estrutura
“Este plano intermédio dá corpo à imagem”, explicou. “Sem ele, o primeiro plano e a cascata pareceriam soltos.”
Plano de fundo – O tema central
“É o destino do olhar. Tudo na imagem leva até lá, mas sem pressa”, disse o Pedro com um sorriso.
Nas palavras de Pedro Henriques
Ler uma imagem em profundidade
“Para mim, esta construção em camadas não é apenas uma escolha estética — é uma forma de contar uma história.
Gosto que o olhar do espectador percorra a imagem devagar, como se estivesse a caminhar pelo lugar: primeiro pelas folhas e pelas pedras do chão, depois pelo trilho, pelas árvores, e finalmente pela cascata.
Cada plano tem o seu tempo, a sua textura, a sua função. E isso ajuda a criar uma imagem que não se vê de uma só vez — vai-se descobrindo.
No fundo, é a minha maneira de traduzir o que senti naquele momento: um convite à presença, à pausa… e à contemplação.”
Decisões técnicas com propósito
“Não é só fotografar — é construir a imagem com cada escolha que faço antes sequer de carregar no botão”, diz o Pedro.
Todas as escolhas técnicas têm uma razão:
- A exposição longa suaviza o movimento da água e traduz visualmente a tranquilidade do local;
- O ISO 50 minimiza o ruído e permite prolongar a exposição;
- A abertura f/8 garante nitidez em toda a profundidade da cena;
- Os filtros ND permitem controlar a entrada de luz para alcançar os 4 segundos de exposição;
- O filtro polarizador remove reflexos indesejados e reforça os tons naturais;
- A cabeça panorâmica e o disparador remoto garantem alinhamento e estabilidade.
A importância do local
“Já visitei este sítio em várias alturas do ano, mas no outono há algo especial na cor e no silêncio”, partilhou Pedro.
Visitar a Bica da Água d'Alta – Dicas práticas
- Localização: Caramulo (concelho de Tondela, Viseu), com acesso sinalizado
- Acesso: Caminho em terra batida, com escadas e corrimão. Piso escorregadio em dias húmidos.
- Melhor hora para fotografar: Início da manhã ou fim de tarde, com luz difusa e menos visitantes
- Estação recomendada: Outono (para tons quentes) ou Primavera (para mais caudal e vegetação densa)
- Equipamento útil: Tripé robusto, filtros ND e polarizador, calçado adequado
Conclusão: ver antes de fotografar
“A fotografia é o resultado do que vi, do que senti e do tempo que decidi deixar entrar na imagem.”
Sobre o autor das fotografias
Pedro Henriques é fotógrafo a residir em Tondela, com interesse particular por longa exposição, macrofotografia, fotografia de eventos e composições construídas com cuidado e uma abordagem contemplativa à imagem.








